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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Dera-se tão bem com aquele modo de viver no sítio da Sapucaia, que o futuro não o preocupava um só instante naqueles rápidos três meses. Passaria naturalmente o resto da existência ao lado da neta gentil de João Pimenta, gozando os inesgotáveis deleites duma vida livre de convenções sociais, em plena natureza, embalado pelo canto mavioso dos rouxinóis e acariciado pelo doce calor dos beijos da sertaneja.

Se alguma vez, no meio daquele torpor delicioso, um sobressalto o apanhava de repente, acordando a idéia do inferno, que lhe atravessava o cérebro como um relâmpago, logo recaia na apática tranqüilidade que era a sua situação normal, adiando - com o movimento impaciente de quem enxota um inseto importuno - o arrependimento que lhe devia remir as culpas, e que reservava para ocasião própria, como o mergulhador que se aventura às profundezas do abismo, confiando na corda que o há-de chamar à tona da água na ocasião do perigo.

Semanas e meses se haviam passado naquela rápida degradação moral. A sua falta não causara estranheza aos tapuios que o hospedavam, e a nova posição da Clarinha, se vivo prazer dera ao pateta do Felisberto, fora perfeitamente indiferente ao velho João Pimenta. Nem sequer se mostrara surpreso quando a sua inteligência tarda percebera que já não se tratava da viagem ao porto dos Mundurucus. O antigo tuxaua deixara de ocupar-se da partida, e retomara as suas labutações normais, a pesca, a caça e a colheita do guaraná para os suprimentos da família Labareda. Também padre Antônio de Morais não se julgara obrigado a darlhe satisfação.

Na verdade, a vida já lhe corria sem aquelas lutas intimas da consciência com o pecado, que se lhe refletiam no semblante, imprimindo-lhe na fronte o sinete do sofrimento mortal. Nobres ambições de glória, ardores de propaganda desapareciam sob a calmaria podre duma consciência adormecida, em que o quase desconhecimento de si mesmo era o resultado dum esgotamento das forças vivas da inteligência e da vontade. O temperamento abafara, no enérgico desenvolvimento das tendências hereditárias e dos instintos famélicos de matuto independente, a moralidade relativa e os sentimentos elevados que a educação do Seminário tentara aproveitar para um fim acanhado, mas que não conseguira disciplinar por insuficiência da doutrina que desconhece a verdadeira natureza do homem; e num rapaz de vinte e três anos, exemplo da sua classe e honra do colégio que o atirara ao mundo como apto para as lutas da vida na espinhosa carreira que procurara, aparecera somente o matuto grosseiro e sensual. Fora bastante o contato da realidade mundana, auxiliado pelo isolamento e pela vaidade, para raspar a caiação superficial que lhe dera o Seminário, e patentear o couro do animal. O hábito fizera o monge. Quem reconheceria no rapaz moreno, de espesso bigode preto, cabeleira penteada, rescendendo a patchuli, com calças e camisa de riscado, o ardente missionário da Mundurucânia, o padre de semblante angélico, a cuja voz as beatas de Silves estremeciam de gozo místico? De vestido talar ou de calças de riscado, Antônio de Morais era fisiologicamente o mesmo homem, mas a diferença que o hábito externo estabelecia entre o presente e o passado duma mesma pessoa exprimia apenas a relação entre o homem que a natureza formara e o indivíduo que a sociedade moldara à sua feição. Tirara a batina e aparecera o filho legítimo de Pedro Ribeiro, o rapazola que levara uma infância livre, satisfazendo o apetite sem peias nem precauções nas goiabas verdes, nos araçás silvestres e nos taperebás vermelhos, tentadores e ácidos.

(continua...)

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