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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

— Já uma vez — disse Albuquerque — achei-os conversando ao lado do alpendre. Sua conversação era inocentes, mas indicava que eles se amam.

— Não será tempo e atalhar este sentimento? Paulo, se as coisas continuarem como vão, virá a perder o casamento com Iaiazinha, e isto seria muito desagradável porque há toda uma conveniência em que se case com a prima.

— E é verdade - tornou Albuquerque; são parentes muito chegados; o sangue é o mesmo. Quanto à fortuna de Iaiazinha pode calcular-se em cem contos de réis. Mas qual o meio de impedir, sem risco de desagradar a D. Maurícia o desenvolvimento destas inclinações? Se Alice não precisasse hoje, mais do que nunca, dos serviços de D. Maurícia, a dispensa destes serviços remediava o mal, e podia realizar-se sem o indício do seu principal motivo; mas devemos acaso arriscarnos com alguma providência de rigor e perder tão boa mestra? Demais, o que não sucederia nesta casa com semelhante separação? Alice, como você sabe, tem para D. Maurícia afeição de filha; Paulo pelo mesmo. Por aí, calcule quanta tristeza não entraria aqui com a ausência dela. D. Maurícia é muito digna, é até responsável; e se não fosse viver separada do marido, estou quase a dizer-lhe que não haveria desdouro em Paulo casar-se com Virgínia, porque o que verdadeiramente se deve exigir na união conjugal - o amor, este os liga e promete ser indissolúvel. Ora, eu quero a felicidade de meus filhos, e não estou ainda deliberado a aprovar o casamento de Paulo com a prima, cuja educação não me parece boa. Esta é a verdade.

Esta linguagem na boca de Albuquerque era a maior das contradições, e só indicava que os merecimentos de Maurícia e Virgínia tinham dado golpe profundo no preconceito que fora até então a primeira lei moral do senhor do engenho.

— Eu também não estou longe de pensar com você neste ponto. Mas então, vejo lá aonde isso irá ter, porque a afeição deles, com a docilidade que há, irá aumentando de dia em dia, e D. Maurícia não cessa de dizer que nunca mais voltará para a companhia do marido. Veja, então, o que se há de fazer, concluiu D. Carolina.

Assim como aos olhos dos pais de Paulo os colóquios entre este e Virgínia pareceram depressa adverti-los que deviam velar sobre o futuro do filho, assim também aos de Maurícia eles indicaram os perigos que cercavam sua filha, não obstante a pureza e a grandeza do grande afeto dos dois jovens. Desde que conheceu a inclinação de Virgínia, começou a ter cuidados, vigilância, estremecimentos e apreensões pela menina. “Hoje são puros, ingênuos, infantis” dizia consigo no fundo do aposento, que se lhe havia destinado no sobrado da casa da vivenda. Mas quem me assegura que há de ser sempre um inocente égloga o amor deles? E se Virgínia, ainda quando seja sempre digna do seu nome, viesse Paulo a preferir outra mulher, sua prima por exemplo, quem lhe resgataria o dano que, depois de conhecidas as relações deles dois atualmente, semelhante acontecimento deveria trazer? Que imputações cruéis as línguas viperinas não se julgariam com o direito de irrogar a minha querida filha? Isso não pode continuar assim”.

Maurícia tomou uma resolução súbita, e desceu à sala de visitas, onde Albuquerque estava lendo os jornais daquele dia.

— Sr. Albuquerque - disse ela, não sem rápidos toques de palidez nas faces, e ligeiro tremor na voz - desculpe que ainda tão cedo venha tomar-lhe o tempo.

— Alguma novidade D. Maurícia? - inquiriu quase sobressaltado o senhor do engenho.

— Tenho por grave e por da maior conta para mim o assunto desta entrevista. — Sente-se ao pé de mim.

E Albuquerque ofereceu-lhe uma cadeira.

Maurícia não se demorou em falar-lhe nos termos seguintes:

— O Sr. já deve ter conhecido que Paulo e Virgínia se amam, e que seu amor, ao que parece, é puro e desinteressado.

— A senhora faz-me justiça quando diz que eu já devia conhecer a afeição comum ente meu filho e sua filha. De fato, essa afeição de há muito me preocupa.

— Tenho perdido noites de sono somente em cuidar nisso. Vivendo eu e minha filha a bem dizer às suas expensas...

— Não, senhora; em minha casa a senhora tem vivido do seu trabalho.

—... esse amor — prosseguiu Maurícia — poderá parecer a muitos um cálculo para eu melhorar de sorte, ou uma baixa retribuição da hospitalidade que recebemos.

— Em minha casa, Sra. D. Maurícia, não há ninguém, nem os meus escravos, que seja capaz de semelhante aleivosia.

— Eu assim penso, Sr. Albuquerque; mas fora da casa e até fora do engenho não há de faltar quem, por maldade, inveja, ou gosto diabólico se apresse a atirar a lama sobre o véu cândido de uma menina inocente que é digna da melhor sorte.

— Não tenha este receio. Os tempos dos falsos testemunhos já passaram, e a virtude resiste a todas as agressões da maledicência e de todas triunfa.

(continua...)

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