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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Está bom, Francisco; fiquemos nisso. Você tudo quer saber. Vamos já para casa; Deus queira que não lhe voltem as malditas. Não satisfeito com apanhar esta chuva, ainda queria meter-se na água.

- Marcelina, você faz mal em andar assim só pelos matos. Para que faz isso, meu bem? As vezes aparecem por estas bandas, malfeitores. Ali dentro havia até bem pouco um couto dos negros fugidos do engenho. Quem sabe se não estão metidos lá ainda alguns que seu sargento-mór não pôde descobrir?

- Não se lembre disso, Francisco. Quem é que me há de ofender? Os negros? Eles não. Conheço todos e sei que gostam de mim, porque compro algumas coisas que trazem de seus mucambos. Vamos já, que a chuva está engrossando.

Assim falando, Francisco e Marcelina meteram-se por sob as folhagens, e com pouco estavam debaixo de coberta enxuta.

De outravez achava-se Francisco muito a seu salvo, limpando o seu partido de abacaxis, quando ouviu fortes bateduras na janela da casa.

Receando fosse alguma violência praticada pelos ditos negros, em quem ele, menos crédulo e simples do que sua mulher, não tinha a menor confiança, poz no ombro a enxada com que estava trabalhando e que, em caso de necessidade, serviria de arma contra os agressores, e tirou para a casa. Entrou ai agitado e perturbado.

- Hoje voltou muito cedo do serviço – disse-lhe Marcelina.

- Vim correndo ver que pancadas eram estas. Cuidei que, tendo-se você trancado com medo dos negros, eles, não pensando que eu me achasse aqui por perto, estavam botando a porta abaixo. Você tem lembranças, Francisco!

Eis a causa dos estrondos, que assustaram o almocreve.

De há muito Marcelina batalhava com o marido para que lhe arranjasse uma taboa, de que dizia ter grande necessidade. Por esquecimento ou por não lhe sobrar tempo, o matuto estava ainda em falta para com ela. Naquele dia Marcelina, que, quando tinha qualquer idéia que lhe parecia vantajosa, não descansava enquanto a não punha por obra, lembrou-se de um meio de realizar sua intenção, sem ser preciso o concurso do marido.

Não a porta, mas a janela da casa achou Francisco fora do seu lugar; só os portais tinham ficado na mesma posição que dantes. As dobradiças tinham sido mudadas para o batente inferior, a fim de que a porta, em vez de ser aberta pelo lado, o fosse pela parte superior, e de modo que, cravado da banda de dentro no chão um pau que chegasse ao nível do primeiro batente, formasse ela, descansando sobre a cabeça do dito pau, um como balcão que pudesse ser visto por quem passasse pela estrada. O fim de Marcelina, realizando esta mudança, era ter onde expor aos viandantes frutas, tapiocas e outros produtos do comercio domestico.

Esta pequena industria é muito praticada nos caminhos do norte. Quantas vezes, em minhas digressões pelas províncias de Pernambuco e Alagoas, não tive ocasião de chegar-me, montado em meu cavalo, ao pé da janela ou do balcão móvel da casinha pobre, onde se mostravam frutos frescos e sazonados, e de os comprar para neles me desalterar do calor do sol e do cansaço da jornada!

Não levou a mal Francisco a alteração que a mulher fizera na obra das mãos dele, antes aprovou, com elogios, a lembrança que lhe dava novo testemunho das faculdades industriais daquela que, como boa e fiel companheira, o ajudava a tornar fácil e digna a aquisição do pão custoso da pobreza.

- Se me tivesse dito que a taboa que me pedia era para este fim, já eu a teria trazido da vila.

Gosto de fazer as minhas invenções sem dizer nada a ninguém, nem a você mesmo – respondeu Marcelina.

Vivia assim feliz, sem Ter coisa alguma que lhe causasse inquietação nem tristeza, aquele casal pobre, mas honrado e discreto, só pedindo a Deus que lhes desse chuva e sol nos tempos oportunos, para que o milho, o feijão, a mandioca, a macaxeira, as batatas, os abacaxis não morressem alagados ou queimados, e que não lhes mandasse doenças graves que os privassem do trabalho, sua distração e prazer de todo dia.

Marcelina não ficava ai, levava ainda além o seu espírito empreendedor, a sua notabilíssima vocação para o pequeno comercio.

Criava porcos, galinhas, patos e perus. Nos tempos de festa os porcos ou eram vendidos por bom dinheiro na vila, ou ela os retalhava, e em sua casa expunha á venda a carne e o toucinho, sempre com tão boa cabeça que só lhe ficava a porção que reservava para seu próprio uso. As vezes, desta mesma parte fazia o picado e o sarapatel para vender aos matutos que eram perdidos por estas espécies de comidas.

Quando as criações estavam muito aumentadas, Francisco metia-as nas capoeiras, e ia vende-las em Goiana, importante centro comercial de toda aquela redondeza, como o Recife já o era de todo o norte por aqueles tempos. Voltava de Goiana trazendo parte dos gêneros apurada em boa moeda, e a outra parte empregada em fazendas para uso da casa.

(continua...)

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