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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Quando Lúcia, tendo dado alguns passos, voltou o rosto para ver ainda uma vez seu amante, avistou- o de joelhos, beijando a relva em que ela estivera reclinada. Fez-lhe vivamente aceno com a mão, para que se retirasse, e sumiu-se entre o laranjal.

Eis em que consistiu aquela entrevista tão ardentemente desejada. Parece que não valia a pena tomarem tanto trabalho, sujeitarem-se a tantos sustos e inquietações, para trocar duas palavras, dar um beijo na mão e receber uma flor. Mesmo debaixo dos tetos do Major não faltaria ocasião azada para fazerem outro tanto muito a seu salvo. mas era sempre uma entrevista, e uma entrevista tem grande importância aos olhos dos amantes, principalmente se tem lugar ao ar livre, tendo por testemunhas o céu, o bosque, a fonte. É mais uma prova de confiança mútua, uma garantia mais solene da lealdade e pureza do amor. O beijo da entrevista é o selo imposto ao contrato que liga para sempre duas almas.

Os amantes são de ordinário mui fáceis em capacitar-se de que ninguém adivinha o sentimento que lhes ocupa o coração; cegos, não se apercebem que em cada palavra, em cada gesto, em cada olhar estão traindo a todo o momento a paixão que julgam escondida nos mais íntimos seios d’alma e que entretanto lhes vai transparecendo em todo o seu ser.

O Major não era dotado de grande perspicácia, nem tinha muito conhecimento do coração humano, coisa que nem em si mesmo tivera ocasião de estudar, pois nunca vivera a vida do coração. Todavia chegou a desconfiar, e em breve se convenceu da existência de uma mútua afeição entre Lúcia e o seu jovem protegido, e já bem tarde arrependeu-se de ter dado a este tão franco agasalho em sua casa. Casar sua filha com um pobretão, que além da roupa do corpo só possuía um cavalo, um cão e uma espingarda, um estranho, sem nome, sem fortuna, sem posição era coisa cuja possibilidade nem por sombra passava-lhe pelo espírito. Seu primeiro cuidado foi, portanto, atalhar logo o mal, antes que tomasse maior vulto. desde logo tratou de suprimir as lições de música. Não o fez, porém, abertamente; mas todas as vezes que era ocasião de tomar lição, achava pretexto para atrapalhá-los, inventando algum serviço urgente, ora para o mestre, ora para as discípulas. Além disso, ocupava mais que de costume a Elias em comissões e viagens, de modo que este pouco tempo parava em casa. Assim julgava ele impedir o progresso do mal, enquanto procurava ajeitar um meio suave e natural de se ver livre de tal hóspede.

Lúcia e Elias, portanto, já raras vezes se viam. Estava mais que claro que tudo aquilo era manobra do Major, que por certo já suspeitava a existência de sua recíproca afeição. Elias compreendeu que era tempo. . . de quê? de pedir Lúcia em casamento. . . não por certo. Na posição precária e quase desvalida em que se achava, não se abalançaria a dar semelhante passo; só podia esperar um não redondo, categórico e humilhante. Era tempo de dizer adeus a Lúcia, ao amor, à felicidade, e também à última esperança que lhe restava n’alma.

A persuasão de Elias ainda mais se confirmou, quando um dia o Major, com o tom mais benévolo e paternal do mundo lhe disse:

-meu amigo, creia que lhe quero bem, e sinceramente desejo o seu adiantamento. Um moço como o senhor, que teve estudos, e tem tantas habilitações, não deve estar-se perdendo em uma roça, onde as suas prendas e habilidades de nada lhe podem servir. Em qualquer povoação que se estabeleça, pode com facilidade ganhar dinheiro e posição, ao passo que aqui, na roça, falo com franqueza de amigo, está perdendo completamente o seu tempo. De minha parte, qualquer que seja o lugar para onde deseje ir, pode contar sempre com o meu pequeno empréstimo naquilo em que lhe puder ser útil. . . e. . .

-tem razão, Sr. Major- interrompeu vivamente Elias; V. Sª. preveniu-me em um propósito que eu já há muito tinha formado. - Vejo que aqui em sua casa sou um ente inútil e que não é à sombra de seu telhado que poderia encontrar fortuna, nem felicidade.

- Agastou-se comigo? . . . não o estou mandando embora. . . é apenas um conselho e amigo.

- Não me agastei, Sr. Major; já lhe disse que era o meu propósito, só receava que V. Sª. o não aprovasse; agora, que sei o contrário, dê-me as suas ordens, que pretendo partir o mais breve possível.

Elias bem sabia o motivo daquele procedimento do Major, e nada tinha que lhe replicar. Era um modo polido de despedi-lo. De feito não era possível de modo mais benévolo e lisonjeiro cravar-se o punhal no coração de uma vítima. As palavras do Major caíram-lhe como rochedos sobre o coração com peso esmagador. Forçoso lhe era deixar Lúcia, talvez para sempre!

(continua...)

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