Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Depois do conde de Bobadela, chegou a seu tempo a vez do vice-rei conde de Resende aumentar as proporções do palácio. O primeiro, como simples governador, tinha-se contentado com um só andar, além do pavimento inferior. O conde de Resende, que era vice-rei, elevou-se a maior altura, e fez construir um segundo andar de doze janelas de sacada que se vê ao meio do primeiro da face do norte.

Abro um parêntesis nesta descrição, que não me custa nada, porque apenas tenho o trabalho de copiá-la de um livro cujo título não declaro, para ver se passo por autor da obra, e interrompendo por momentos o fio do discurso, entro em certas explicações que não me parecem desnecessárias.

Visto que, com as obras dos dois condes, o palácio já tem não menos de cento e vinte e cinco janelas, convém dizer o que se via nesse tempo mais próximo a elas.

Da face principal via-se o mar, isso já ficou dito; da face do norte via-se o chafariz ainda no meio da praça, e já então, ou mais tarde, a casa dos Teles defronte. Os Teles foram homens notáveis no Rio de Janeiro pela sua riqueza e pela sua posição. A sua fama ficou perpetuada por um arco, que tomou o nome deles, e que não é mais do que um passadiço. A face do fundo namorava o convento dos carmelitas, que um dia havia de acabar por conquistar. A face do sul, enfim, tinha em sua frente a casa da câmara e cadeia, que é hoje o paço da câmara dos deputados, e além dessa, a casa da ópera, que se tornou uma dependência do palácio.

Ainda aqui não fecho o parêntesis.

Preciso dizer quem morava na casa dos governadores e dos vice-reis; pois que, além deles, mais alguém se achava estabelecido debaixo do mesmo teto.

Moravam com eles a justiça e a fazenda.

Os vice-reis ocupavam mais de meio da galeria superior, além do segundo andar, para o lado da praça.

Para o mesmo lado, todo o resto da casa até ao canto fronteiro ao convento do Carmo servia de assento ao tribunal da relação.

No pavimento inferior e sob esses domínios da relação ficava a fábrica moedal, como a chama Pizarro, e o quarto do canto que olha por um lado para a casa da câmara, e por outra para o convento dos carmelitas, era habitado pelo provedor da moeda.

Estava, por assim dizer, todo o governo da terra reunido no mesmo ponto, e a um grito do vice-rei levantar-se-iam a relação com a espada de Astréia, a câmara municipal, que representa o povo, o provedor da moeda, que forjava o encanto do mundo, e até podia acudir o carcereiro da cadeia com a competente guarda.

E para tudo isso, bastava um grito. Hoje grita-se horas inteiras, de noite, nas ruas da cidade, e é um milagre, quando aparece a patrulha!

Era agora ocasião de fechar o parêntesis que abri ainda há pouco. Acho-me, porém tão fatigado que suponho conveniente deixá-lo ainda aberto, enquanto descanso.

II

Fiz muito bem não fechando o parêntesis que abri ao terminar o meu artigo precedente.

Antes de prosseguir na descrição cronológica do palácio imperial, preciso dar ainda algumas explicações que se referem aos costumes do tempo dos vice-reis.

É verdade que a Justiça e a Fazenda moravam com o vice-rei debaixo do mesmo teto; convém, porém, saber que o vice-rei e o tribunal da relação tratavam-se tão cerimoniosamente que nem ao menos se falavam, passando de umas a outras salas pelo interior da casa.

Nos dias da reunião do tribunal, que era presidido pelo vice-rei, o carro deste vinha recebê-lo à entrada principal do paço e o levava a apear-se à porta que se abria para o terreiro do Paço, e que era a que pertencia aos domínios da relação.

Mandava a regra que o vice-rei não fosse exercer tão importantes funções, fazendo a pé um passeio, embora tão curto, e que se comunicasse com o tribunal da relação aos olhos de todos, e não pelas portas travessas. Já naquela época tinha-se medo da influência dos corredores e das ante-salas.

Com a fábrica da moeda, ou não havia tantas cerimônias, ou, além dos seus domínios no pavimento inferior, tinha ela no primeiro andar ainda uma sala para o lado da travessa do Paço; porque aí se via uma grande balança, pendendo de uma mão de ferro, e destinada ao serviço daquela fábrica.

A balança desapareceu, quando se mudou a fábrica para o edifício em que hoje se acha. Ficou, porém, a mão de ferro, que somente no reinado do Sr. D. Pedro I foi arrancada como se se quisesse dizer que, depois de fundado o governo constitucional, não devesse mostrar-se mão de ferro no palácio do chefe do Estado.

Agora fechei definitivamente o parêntesis, e para que não haja a menor dúvida a esse respeito, fechei-o com uma potente mão de ferro.

Vou continuar a descrição interrompida.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...910111213...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →