Por José de Alencar (1853)
— Não se precisa saber o motivo; basta que o voto se fez, para se dever cumprir. Tomo sobre mim o que fôr preciso para a novena, e não consinto que ninguem mais se encarregue d'isso; estais ouvindo, Duarte de Moraes.
Cuidou Ayres desde logo nos aprestos da devoção, e para que se fizesse com o maior apparalo, resolveu que a novena seria em uma capella do mosteiro, para o qual se transportaria de seu nicho da escuna a imagem de N. Senhora da Gloria.
Diversas vezes foi elle com Maria da Gloria e Ursula a uma loja de capellista para se proverem de alfaias com que adornassem a sagrada imagem. O melhor ourives de S. Sebastião incumbiuse de fazer um novo resplendor cravejado de brilhantes, emquanto a menina com suas amigas recamava de alcachofras de ouro um rico manto de brocado verde.
N'este preparativos consumiam-se os dias, e tão occupado andava Ayres com elles, que não pensava em outra cousa, nem já se lembrava do voto que fizera; passava as horas junto de Maria da Gloria, entretendo-se com ella dos adereços da festa, satisfazendo-lhe as minimas fantasias; essa doce tarefa o absorvia por modo que não lhe sobravam nem pensamentos para mais.
Afinal chegou o dia da novena, que celebrouse com uma pompa ainda não vista na cidade de S. Sebastião. Foi grande a concurrencia de devotos que vieram de S. Vicente e Itanhaem para assistir á festa.
A todos encantou a formosura de Maria da Gloria, que tinha um vestido de riço azul com recamos de prata, e um collar de turquezas com arrecadas de saphiras.
Mas suas joias, de maior preço, as que mais a adornavam, eram as graças de seu meigo semblante que resplandecia com uma aureola celeste.
— Jesus!... exclamou uma velha beata. Podiase tirar d'ali, e pol-a no altar que a gente havia de adoral-a, como a propria imagem da Senhora da Gloria.
Razão, pois, tinha Ayres de Lucena, que toda a festa a esteve adorando, sem carecer de altar, e tão absorto, que de todo esqueceu o lugar onde se achava, e o fim que ali o trouxera.
Só quando, terminada a festa, elle sahia com a familia de Duarte de Moraes, acudiu-lhe que não rezára na igreja, nem rendera graças á Senhora da Gloria por cuja milagrosa intercessão escapára a menina da cruel enfermidade.
Era tarde porém; e si passou-lhe pela mente a idea de tornar á igreja para reparar seu esquecimento, o sorriso de Maria da Gloria arrebatou-lhe de novo o espirito n'aquelle enlevo, em que o tivera preso.
Depois da doença da menina dissipára-se o enleio que ella sentia na presença de Ayres de Lucena. Agora com a chegada do corsario, em vez de acanhar-se, ao contrario expandia-se a flôr de sua graça, e desabrochava em risos, embora roseados pelo pudor.
Uma tarde que passeiavam os dois pela ribeira, em companhia de Duarte de Moraes e Ursula, Maria da Gloria, vendo embalar- se airosamente sobre as ondas a escuna, soltou um suspiro e voltando-se para Lucena, disse-lhe:
— Agora tão cedo não vai ao mar!
— Porque ?
— Deve descançar. .
— Sómente por isso ? perguntou Ayres desconsolado.
— E tambem pelas saudades que deixa aos que lhe querem, e pelos cuidados que nos leva. O pai que diz? Não é assim?
— Certo, filha, que o nosso Ayres de Lucena já tem feito muito pela patria a pela religião, para dar-nos tambem aos amigos alguma parte da sua existencia.
— Toda vol-a darei d'ora avante; ainda que tenha eu tambem saudades do mar, das noitadas de bordo, e d'aquelle voar nas azas da borrasca, em que o homem se acha face a face com a colera do céo. Mas, pois, assim o querem, seja feita a vossa vontade.
Estas ultimas palavras proferiu-as Ayresolhando para a menina.
— Não se peze d'isso, tornou-lhe ella; que em lhe apertando as saudades, embarcaremos todos na escuna, e iremos correr terras, onde nos levar a graça de Deus e de minha Madrinha.
XII
O MILAGRE
Correram mezes, que Ayres passou na doce intimidade da familia de Duarte de Moraes, e no enlevo de sua admiração por Maria da Gloria.
Já não era o homem que fôra; os prazeres em que outrora se engolfava, de presente os aborrecia, e tinha vergonha da vida dissipada que levára até ali.
Ninguem mais o via por tavolagens e folias, como nos tempos em que parecia sofrego de consumir a existencia.
Agora, si não estava em casa de Duarte de Moraes, perto de Maria da Gloria, andava pelas ruas a scismar.
Ardia o cavalheiro por abrir seu coração áquella que já era d'elle senhora, e muitas vezes fôra com o proposito de falar-lhe do seu affecto.
Mas na presença da menina o desamparava a resolução que
trazia; e sua voz affeita ao commando, e habituada a dominar o rumor da
procella e o estrondo dos combates, balbuciava timida e submissa uma breve saudação.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.