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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Por Hermano, Amália sentia um indefinível respeito. Parecia-lhe que via nele pela primeira vez um homem,. bem diverso da gente que povoava as salas e ruas. Nesse habitava uma alma; e era uma alma superior ao mundo, que tinha o seu mundo em si.

Ela, que dias antes ria do espiritualismo de Henrique Teixeira, a propósito do amigo, enlevou-se depois numa ideologia ainda mais abstrata; e achava simples, naturais, evidentes, os fatos que sua imaginação fantasiava.

Julgara a princípio uma demência, essa ilusão em que vivia Hermano. Entretanto que exagerava agora aquele fenômeno moral, e atribula uma intenção misteriosa aos menores incidentes.

Por quem Amália, porém, mais se interessava era pela pessoa que já não existia: pela mulher que Hermano amava. Ela a considerava já como uma irmã sua; evocava a sua imagem; falava-lhe, e ficava contente de vê-la feliz por ter inspirado ao marido aquele amor indelével.

Avivava-se-lhe o pesar de não a ter conhecido, e de não lembrar-se de suas feições. Desejava tanto contemplar-lhe a beleza, ainda que fosse de memória! Hermano possuía necessariamente um retrato fiel de sua Julieta. Que não daria ela para vê-lo?

Essa mulher que havia merecido um amor tão puro, completamente desprendido dos interesses e misérias sociais; que expressão, que encanto especial, que magia celeste possuía a sua beleza!

Às vezes Amália tinha uma vaga reminiscência da alvura deslumbrante de sua tez; do brilho sereno dos olhos; da suave inflexão do talhe.

E insensivelmente comparava-se a esse modelo; e sorria-se com desvanecimento, porque achava em si uns traços de semelhança.

A sociedade começou a mostrar-se à moça por um novo aspecto.

As futilidades brilhantes que dantes a alegravam e que ela chamava as flores da vida, tornaram-se para seu espírito mais calmo, flores do vento, rosas efêmeras e sem perfumes; e foi assim que a pouco e pouco se isolou do mundo. Sentia um tédio indefinível pelos divertimentos, e só achava prazer na solidão.

O Sr. Veiga havia colhido acerca de Henrique Teixeira boas informações. Era médico de talento e podia contar com um brilhante futuro, se não lhe faltasse a qualidade preciosa de saber-se apresentar.

Essa qualidade não é tão comum como se pensa; o que se encontra a cada passo e em todas as profissões é o abuso dela, o vício muito conhecido com o nome de charlatanismo. Não se trata, porém, desse grosseiro arremedo, que está ao alcance de qualquer sujeito desembaraçado, ainda mesmo ignorante e medíocre.

Os processos e fórmulas do charlatanismo já se aperfeiçoaram de tal modo, que os adeptos não carecem mais de gênio inventivo; tudo está feito, desde o anúncio até a celebridade artificial.

Aquele que precisa do petrecho completo, médico, advogado ou artista, não tem mais do que pagar.

O que faltava a Henrique Teixeira não era pois essa fanqueria a que o seu caráter não se prestava;

era sim a verdadeira e fina arte social que ensina o homem a pôr em relevo o seu merecimento e atenuar os seus defeitos, sem hipocrisia, unicamente pela simples reserva e discrição.

Os painéis dos melhores mestres carecem de uma posição favorável para mostrarem todas as suas belezas; colocados contra a luz ou de esguelha desmerecem completamente e confundem-se com qualquer pintura. Assim são os homens na sociedade A atitude é tudo: quase sempre decide de uma carreira.

O Sr. Veiga era homem prático e muito conhecedor do seu mundo. Apreciou pois no justo valor a observação do amigo que lhe prestava esta informação; mas também sabia ele que a riqueza supre perfeitamente na sociedade a virtude, o talento, o saber, e até a afeição.

O marido de Amália com duzentos contos de réis de dote, e o dobro em perspectiva, não precisava de apresentar-se; estava apresentado pela sua fortuna. Tinha um pedestal; todos o haviam de ver. Nenhuma necessidade teria ele de insinuar-se, de agradar por suas maneiras, quando podia impor-se. Que melhor anúncio e mais pomposo elogio do que um lindo carro tirado por formosa parelha de cavalos do Cabo, a percorrer as ruas da cidade e a excitar a atenção pública?

Em conclusão, o Sr. Veiga calculou que o Dr. Henrique Teixeira lhe convinha para genro, especialmente pela circunstância mui importante de mostrar Amália por ele uma inclinação decidida.

Depois da noite da apresentação, o médico fizera à família a visita de rigor; e nessa ocasião ainda Amália o acolhera com a maior afabilidade, insistindo para que não faltasse às partidas. Além disso D. Felícia, que se incumbira de sondar as disposições da filha, não teve necessidade de usar de sua diplomacia. A moça, espontaneamente e sem reticências, manifestou a impressão agradável que o médico deixara em seu ânimo.

(continua...)

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