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#Comédias#Literatura Brasileira

O Noviço

Por Martins Pena (1845)

Florência — Abençoada seja a hora em que eu te escolhi para meu esposo! Meus caros filhos, aprendei comigo a guiar-vos com prudência na vida. Dous anos estive viúva e não me faltaram pretendentes. Viúva rica... Ah, são vinte cães a um osso. Mas eu tive juízo e critério; soube distinguir o amante interesseiro do amante sincero. Meu coração falou por este homem honrado e probo.

Carlos — Acertadíssima escolha!

Florência — Chega-te para cá, Ambrosinho, não te envergonhes; mereces os elogios que te faço.

Ambrósio, à parte — Estou em brasas...

Carlos — Não se envergonhe, tio. Os elogios são merecidos. (À parte:) Está em talas...

Florência — Ouves o que diz o sobrinho? Tens modéstia? É mais uma qualidade.

Como sou feliz!

Ambrósio — Acabemos com isso. Os elogios assim à queima roupa perturbam-me.

Florência — Se os merece...

Ambrósio — Embora.

Carlos — Oh, o tio os merece, pois não. Olhe, tia, aposto eu que o tio Ambrosinho em toda a sua via só tem amado a tia...

Ambrósio — Decerto! (À parte:) Quer fazer-me alguma.

Florência — Ai, vida da minha alma!

Ambrósio, à parte — O patife é muito capaz...

Carlos — Mas nós, os homens, somos tão falsos — assim dizem as mulheres —, que não admira que o tio...

Ambrósio, interrompendo-o — Carlos, tratemos da promessa que te fiz.

Carlos — É verdade; tratemos da promessa. (À parte:) Tem medo, que se pela!

Ambrósio — Irei hoje mesmo ao convento falar ao D. Abade, e dir-lhe-ei que temos mudado de resolução a teu respeito. E de hoje em quinze dias, senhora, espero ver esta sala brilhantemente iluminada e cheia de alegres convidados para celebrarem o casamento de nosso sobrinho Carlos com minha cara enteada. ( Aqui entra pelo fundo o mestre dos noviços, seguidos dos meirinhos e permanentes, encaminhandose para a frente do teatro.)

Carlos — Enquanto assim praticardes, tereis em mim um amigo.

Emília — Senhor, ainda que não possa explicar a razão de tão súbita mudança, aceito a felicidade que me propondes, sem raciocinar. Darei a minha mão a Carlos, não só para obedecer a minha mãe, como porque muito o amo.

Carlos — Cara priminha, quem será capaz agora de arrancar-me de teus braços?

Mestre, batendo-lhe no ombro — Estais preso. (Espanto dos que estão em cena)

CENA VI

Carlos — O que é lá isso? (Debatendo-se logo que o agarram.)

Mestre — Levai-o.

Florência — Reverendíssimo, meu sobrinho...

Mestre — Paciência, senhora. Levem-no.

Carlos, debatendo-se — Larguem-me, com todos os diabos!

Emília — Primo!

Mestre — Arrastem-no.

Ambrósio — Mas, senhor...

Mestre — Um instante... Para o convento, para o convento.

Carlos — Minha tia, tio Ambrósio! (Sai arrastado. EMÍLIA cai sentada em uma cadeira; o Padre-Mestre fica em cena.)

CENA VII

Ambrósio, Mestre de Noviços, Florência e Emília.

Florência — Mas senhor, isto é uma violência!

Mestre — Paciência...

Florência — Paciência, paciência? Creio que tenho tido bastante. Ver assim arrastar meu sobrinho, como se fosse um criminoso?

Ambrósio— Espera, Florência, ouçamos o Reverendíssimo. Foi, sem dúvida, por ordem do Sr. D. Abade que Vossa Reverendíssima veio prender nosso sobrinho?

Mestre — Não tomara sobre mim tal trabalho, se não fora por expressa ordem do D. Abade, a quem devemos todos obediência. Vá ouvindo como esse moço zombou de seu mestre. Disse-me a tal senhora, pois tal a supunha eu... Ora fácil foi enganarme... Além de ter má vista, tenho muito pouca prática de senhoras...

Ambrósio — Sabemos disso.

Mestre — Disse-me a tal senhora que o noviço Carlos estava naquele quarto.

Ambrósio —Naquele quarto?

Mestre — Sim senhor, e ali mandou-nos esperar em silêncio. Chamou pelo noviço, e assim que ele saiu lançamo-nos sobre ele e à força o arrastamos para o convento.

Ambrósio, assustado — Mas a quem, a quem?

Mestre — A quem?

Florência — Que trapalhada é essa?

Ambrósio — Depressa!

Mestre — Cheguei ao convento, apresentei-me diante do D. Abade, com o noviço prisioneiro, e então... Ah!

Ambrósio — Por Deus, mais depressa!

Mestre — Ainda me coro de vergonha. Então conheci que tinha sido vilmente enganado.

Ambrósio — Mas quem era o noviço preso?

Mestre — Uma mulher vestida de frade.

(continua...)

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