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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

—Pois ela, não! Ouve até muito bem! —Ah! há, pouco me pareceu o contrário! Emília ergueu-se: —Também a mim me parecia que o Sr. Dr. Amaral era míope; mas agora conheço que enxerga muito e longe! —A senhora ouviu?... Desculpe! Cuidei que estava distraída. 

—Enganou-se ainda desta vez! disse-me e afastou-se. 

Uma das alusões de Emília, eu tinha compreendido perfeitamente: ela me qualificava de míope por não ter percebido logo quanto eu a importunava. Que sentido porém tinham aquelas outras palavras —enxerga muito e longe! Devia ter breve a explicação. Julinha estava ao piano; conversávamos. 

A voz dessa menina tinha não sei quê de bom e mavioso, que penetrava o coração de suaves eflúvios. Era quase sempre ela quem me aplacava as cóleras suscitadas pelos motejos da Duartezinha. 

Esta passeava na sala pelo braço de um moço de vinte anos, ridículo arremedo de homem, que a moda transformara num elegante boneco. Emília, na sua fria e incisiva ironia, retratava-o com um monossílabo. Ela dizia por exemplo: 

—Nós somos um perfeito cavalheiro de sala, Sr. Barbosinha. Nós trajamos no rigor da moda. Este nós era o pronome da fatuidade e efeminação do moço. 

Passando por diante do piano, Emília soltou uma risada bem alta e dirigiu-se a Julinha: 

—Não lhe parece, prima? —O quê, Mila? —Eu dizia aqui ao senhor que a gratidão é um sentimento mesquinho. 

—Como mesquinho? Não entendo! —D. Emília quer dizer que não passa de um fingimento; acudiu o Barbosinha. 

—Nós nos enganamos, Sr. Barbosinha! replicou Emília sorrindo. 

Eu digo, prima, que isso de gratidão não é um sentimento nobre e elevado; pelo menos eu nunca desejaria inspirá-lo a alguém! —Por que razão, prima? —Pois não, Julinha! Pode haver nada menos generoso e mais ridículo do que um indivíduo, porque prestou um serviço, mesmo que salvasse a vida a alguém... arrogar-se uma certa superioridade sobre o outro e julgar-se com direito a tudo... à estima e à amizade de uma pessoa?... Não é uma espécie de humilhação que se impõe àqueles que não pediram, nem desejavam seus favores, e talvez os podiam pagar? Emília falava com uma natural volubilidade, como se estivera conversando de cousas indiferentes. Seu lábio desfolhava, de envolta com as palavras, breves e finos sorrisos, que eram como os espíritos maus de suas palavras. Eu a escutava de parte, sentindo os dardos do escárnio que ela me atirava de revés. De repente vi passar-lhe pelos olhos vivo e súbito lampejo. 

—E alguns há desses generosos, continuou ela, que não perdem ocasião de lembrar o beneficio feito, com receio de que o possam esquecer! Se não é uma infelicidade, parece uma... 

Eu vi clara e distinta a palavra especulação na boca de Emília; e estava de pé, alheio de mim, antes que ela a pronunciasse. Que ia eu fazer? Que podia eu, contra o insulto de uma mulher, e ali no meio de uma sala? Nada. Erguera-me por esse movimento involuntário e misterioso que nos momentos solenes erige a estatura do homem, como a expansão natural de sua força e dignidade. Sentados parece que nos curvamos à injúria, e a deixamos pesar sobre nossa cabeça; erguidos, como que lhe ficamos sobranceiros, e a olhamos do alto, e a calcamos aos pés! Emília vendo-me levantar arrebatado, mediu-me com um olhar provocador, soltando com estudada lentidão a palavra suspensa : 

—Uma especulação! Já eu tivera tempo, não de reprimir, mas disfarçar a emoção. 

Disse-lhe folheando ao acaso um álbum de músicas: 

—Tem razão, D. Emília ; atualmente com tudo se especula, de tudo se zomba. Ganhar muito dinheiro para ter o direito de rir dos outros, eis a grande questão!... 

Havia decerto em meu rosto alguma cousa, sintomas do refrangimento de uma alma angustiada, que assustou Emília. Ela desviou de mim os olhos e esquivou-se tímida e sobressaltada. Parti imediatamente da casa de D. Matilde; tinha gelo no coração e fogo nas faces. 

A minha resposta ao insulto de Emília me parecia ridícula e parva; outras réplicas mais frisantes me acudiam, que eu desejava ter podido lançar ao rosto daquela moça. Envergonhei-me do ridículo papel que fizera. 

—Se ela amasse alguém!... pensava então. Eu a insultaria na pessoa dele. 

Decorreram dias; em todos eles meu primeiro pensamento, abrindo os olhos, era dessa mulher. Foram maus dias esses, que tiveram suas manhãs de ódio. Enfim, voltou a calma; o rancor se ocultara no coração, como a fera no covil, para espreitar sua vingança. 

Pouco tempo depois, Geraldo, jantando em minha casa, disse-me de repente no meio de uma conversa: 

—Agora me lembro!... Hás de fazer-me um favor, Amaral? —Farei podendo. 

(continua...)

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