Por José de Alencar (1873)
Anos depois de escrito O Guarani, reli Cooper a fim de verificar a observação dos críticos e convenci-me de que ela não passa de um rojão. Não há no romance brasileiro um só personagem de cujo tipo se encontre o molde nos Moicanos, Espíão, Ontário, Sapadores e Leonel Lincoln.
N’O Guarani derrama-se o lirismo de uma imaginação mpça, que tem como a primeira rama o vício da exuberância; pôr toda a parte a linfa, pobre de seiva, brota em flor ou folha. Nas obras do eminente romancista americano, nota-se a singeleza e parcimônia do prosador, que se não deixa arrebatar pela fantasia, antes a castiga.
Cooper considera o indígena sob o ponto de vista social, e na descrição dos seus costumes foi realista; apresentou-o sob aspecto vulgar.
N’O Guarani o selvagem é um ideal, que o escritor intenta poetizar, despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram os cronistas, e arrancando-o ao ridículo que sobre ele projetam os restos embrutecidos da quase extinta raça.
Mas Cooper descreve a natureza americana, dizem os críticos. E que havia ele de descrever, senão a cena de seu drama? Antes dele Walter Scott deu o modelo dessas paisagens à pena, que fazem parte da cor local.
O que se precisa examinar é se as descrições d’O Guarani têm algum parentesco ou afinidade com as descrições de Cooper; mas isso não fazem os críticos, porque dá trabalho e exige que se pense. Entretanto basta o confronto para conhecer que não se parecem nem no assunto, nem no gênero e estilo.
A edição avulsa que se tirou d’O Guarani, logo depois de concluída a publicação em folhetim, foi comprada pela livraria do Brandão, pôr um conto e quatrocentos mil réis que cedi à empresa. Era essa edição de mil exemplares, porém trezentos estavam truncados, com as vendas de volumes que se faziam à formiga na tipografia. Restavam pois setecentos, saindo o exemplar a 2$000.
Foi isso em 1857. Dois anos depois comprava-se o exemplar a 5$000 e mais. Nos belchiores que o tinham a cavalo do cordel, embaixo dos arcos do Paço, donde o tirou o Xavier Pinto para a sua livraria da Rua dos Ciganos. A indiferença pública, senão o pretensioso desdém da roda literária, o tinha deixado cair nas pocilgas dos alfarrabistas.
Durante todo esse tempo e ainda muito depois, não vi na imprensa qualquer elogio, crítica ou simples notícia do romance, a não ser em uma folha do Rio Grande do Sul, como razão para a transcrição dos folhetins. Reclamei contra esse abuso, que cessou; mas posteriormente soube que aproveitou-se a composição já adiantada para uma tiragem avulsa. Com esta anda atualmente a obra na sexta edição.
Na bela introdução que Mendes Leal escreveu ao seu Calabar, se extasiava ante os tesouros da poesia brasileira, que ele supunha completamente desconhecidos para nós. “E tudo isto oferecido ao romancista, virgem, intacto, para escrever, para animar, para reviver”.
Que ele o dissesse, não há estranhar, pois ainda hoje os literatos portugueses não conhecem da nossa literatura, senão o que se lhes manda de encomenda com um ofertório de mirra e incenso. Do mais não se ocupam; uns pôr economia, outros pôr desdém. O Brasil é um mercado para seus livros e nada mais.
Não se compreende, porém, que uma folha brasileira, como era o Correio Mercantil, anunciando a publicação do Calabar, insistisse na idéia de ser essa obra uma primeira lição do romance nacional dada aos escritores brasileiros, e não advertisse que dois anos antes um compatriota e seu ex-redator se havia estreado nessa província literária.
“Há muito que o autor pensava na tentativa de criar no Brasil para o Brasil um gênero de literatura para que ele parece tão afeito e que lhe pode fazer serviços reais”. Quando Mendes Leal escrevia em Lisboa estas palavras, o romance americano já não era uma novidade para nós; e tinha n’O Guarani um exemplar, não arreado dos primores do Calabar, porém incontestavelmente mais brasileiro.
VIII
Hoje em dia quando surge algum novel escritor, o aparecimento de seu primeiro trabalho é uma festa, que celebra-se na imprensa com luminárias e fogos de vistas. Rufam todos os tambores do jornalismo, e a literatura forma parada e apresenta armas ao gênio triunfante que sobe ao Panteão.
Compare-se essa estrada, tapeçada de flores, com a rota aspérrima que eu tive de abrir, através da indiferença e do desdém, desbravando as urzes da intriga e da maledicência.
Outros romances é de crer que sucedessem a O Guarani no folhetim do Diário; se meu gosto não se voltasse então para o teatro. De outra vez falarei da feição dramática de minha vida literária; e contarei como e porque veio-me essa fantasia. Aqui não se trata senão do romancista.
(continua...)
ALENCAR, José de. Como e por que sou romancista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1837 . Acesso em: 14 jan. 2026.