Por José de Alencar (1870)
Sem consciência do que fazia, precipitou-se para a portinhola do carro. O lacaio que a fechava nesse momento, embargou-lhe o passo. Quando o carro partiu na direção de São Francisco de Paula, Amélia inclinou-se e lançou de esguelha um olhar vivo para a esquina.
Leopoldo ficara na calçada imóvel e extático de surpresa.
O pé que seus olhos descobriram, era uma enormidade, um monstro, um aleijão. Ao tamanho descomunal para uma senhora, juntava a disformidade. Pesado, chato, sem arqueação e perfil, parecia mais uma base, uma prancha, um tronco, do que um pé humano e sobretudo o pé de uma moça.
Os traços especiais da beleza de Amélia não tinham deixado na memória de Leopoldo a mínima impressão, da primeira vez que a vira, apesar de contemplá-la demoradamente. Entretanto o defeito não lhe escapou, embora passasse de relance diante de seus olhos.
Parece uma singularidade; mas não é. Ninguém conta as pétalas da flor que admira; ninguém repara na forma especial de cada uma das partes de que se compõe um todo gracioso; porém a menor mácula se destaca imediatamente.
É por isso que certos homens, não podendo distinguir-se entre a gente sisuda e honesta, fazem-se nódoas da sociedade; tornam-se vícios e torpezas. Assim adquirem a celebridade, que não obteriam com sua virtude ambígua e seu mesquinho talento.
O Castro, que não admirara o matiz da rosa, notou a mácula e desgostou-se dela. Ele sentia-se com forças para amar o feio e o desgracioso, mas não o disforme, o horrível. Essa aberração da figura humana, embora em um ponto só, lhe parecia o sintoma, senão o efeito, de uma monstruosidade moral.
Triste, acabrunhado por pensamentos acerbos, o moço continuou seu caminho pela Rua dos Ouvires em direção a casa. Mal havia andado alguns passos, arrependeu-se; não queria levar à sua habitação esse primeiro transbordamento de um dissabor tão profundo; era melhor deixá-lo escoar-se antes de recolher à solidão habitual. Se tivesse alguma coisa a fazer! Qualquer ocupação bem aborrecida e maçante, que lhe servisse de antídoto ao desgosto íntimo!
Excogitou. Havia ali perto, na Rua Sete de Setembro, uma pequena loja de sapateiro, ou antes uma tenda, porque além do balcão via-se apenas uma tosca vidraça, contendo a obra de três oficiais que aí trabalhavam.
A loja pertencia a um mestre fluminense, que trabalhara por algum tempo na casa do Guilherme e do Campàs, e se iniciara portanto em todos os segredos da arte. Ninguém a exercia com mais habilidade, esmero e entusiasmo do que ele; sua obra, quando queria, não tinha que invejar ao produto das melhores fábricas de Paris, se não o excedia na elegância e delicadeza.
A razão cardeal de toda a superioridade humana é sem dúvida a vontade. O poder nasce do querer. Sempre que o homem aplique a veemência e perseverante energia de sua alma a um fim, ele vencerá os obstáculos, e se não atingir o alvo, fará pelo menos coisas admiráveis. Mas para que o homem se entregue assim a uma idéia e se cative a um pensamento, é necessário ser atraído irresistivelmente, ser impelido pelo entusiasmo.
É o entusiasmo que faz o poeta e o artista, o sábio e o guerreiro; é o entusiasmo que faz o homem — idéia diferente do homem-máquina. A fábula de Prometeu' não exprime senão a alegoria desse fogo celeste d'alma, que anima as estátuas de Galatéia, embora depois dilacere o coração como a águia do rochedo. Uma faísca dessa eletricidade moral opera maravilhas iguais à centelha do raio. O que é o telégrafo a par com a eloqüência?
O Matos tinha o entusiasmo de sua arte; descobrira nela segredos e encantos desconhecidos aos mercenários. Para ele o calçado era uma escultura; copiava em seda e couro, assim como o cinzel copia em gesso e mármore. Os outros artistas da forma reproduzem todo o vulto humano ou pelo menos o busto; ele só tinha um assunto, o pé. Mas que importância não tomava a seus olhos esta parte do corpo! Era preciso ouvi-lo, em algum momento de arroubo, para fazer idéia de sua admiração por esse membro da criatura racional.
Depois de trabalhar muitos anos em casas francesas, o mestre fluminense resolveu estabelecer-se por sua conta. Alugou uma pequena loja de duas portas, onde trabalhava com dois oficiais. A necessidade de ganhar o pão o obrigava a tornar-se mercenário, fazendo obra de carregação para vender barato. Mas no meio dessa tarefa ingrata tinha ele suas delícias de artista. Meia dúzia de fregueses, conhecedores da habilidade do sapateiro, preferiam seu calçado ao melhor de Paris, e o pagavam generosamente. Essas raras encomendas, o Matos as executava com enlevo; revia-se em sua obra, verdadeiro primor.
Leopoldo não era um freguês da última classe; ele não conhecia a voluptuosidade de um calçado macio, antes luva do que sapato; seu pé não era um enfant gaté, um benjamim acostumado a essas delícias; desde a infância o habituara a uma vida rude e austera entre a sola rija e o bezerro.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.