Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Corina Então é que eu sou tão tola que nem compreendo as coisas mais claras e simples...
Pereg.
Oh, pois que se finge ignorar, não deve negar-se a ouvir a explicação mais completa...
Corina A sós, como estamos? Deus me livre: seu pai mo proibiu...
Pereg.
D. Corina!...
Corina Ah! Sinto os passos da tia Suzana: na presença dela sim, o senhor pode explicar-me tudo...
Pereg.
Não... agora não... tenho pressa... peço-lhe até por favor, que não refira a tia Suzana o que eu lhe dizia... (saindo)
Corina
Ainda que eu quisesse, não poderia fazê-lo: pode crer que não entendi nada. (seguindo-o dois passos. Vai a Pereg.)
Cena 8ª
Corina e Suzana
Suzana Que foi que não entendeste, menina?
Corina O que sou obrigada a ouvir e a entender todos os dias.
Suzana Então finges e simulas; mas no fingimento há malícia: a candura é que é agradável ao Senhor. (senta-se)
Corina Guardo a franqueza só para a confiança: vivo nesta casa há um ano e ainda não fui fingida com a tia Suzana.
Suzana Creio-te Corina; mas na tua idade que é a das expansões!...
Corina Expansões?... Tive-as, enquanto meu pai viveu; aos dez anos porém, pobre órfã, presa no colégio, o que logo me ensinaram, foi a desconfiar de todos: falavam-me de minha riqueza e de mil perigos que me cercaram: por ordem de meu tutor acompanhava-me sempre uma espionagem suspeitosa e ainda mais nociva por ser mais de ostentação do que de vigilante cuidado: fizeram-me adivinhar o mal e ter medo do mundo...
Suzana Não exageras?...
Corina Afetaram disputar-me o ar, a liberdade, os vôos de menina nas horas de recreio: menina, fui passarinho com as asas cortadas, vendo o espaço e sem poder voar, pareciam vigiar-me de dia e de noite com apreensões sinistras: tudo isso me aterrorizava, mas também me fazia crer que me achava defendida e livre de qualquer traição: todavia um dos meus professores teve tempo para tentar seduzir-me, e uma das alunas do colégio atormentar-me com o amor de um seu irmão que se propunha a raptar-me.
Suzana Que horror!... Coitadinha...
Corina Aos quatorze anos vim esperançosa para a casa do meu tutor, mas bem depressa tive de chorar pelo meu colégio! Aqui a prisão chega a ser cruel: a tia Suzana sabe como o sr. Firmino e sua esposa conspiram contra os direitos do meu coração, cada qual de seu lado, e no interesse material de seus filhos!
Suzana Tens razão...
Corina Não consentem que eu tenha uma amiga, nem que eu desça sozinha ao jardim, nem que saia uma vez de casa, ao menos para levarem-me à igreja: despediram a minha ama-de-leite que meu pai libertara com a condição de acompanhar-me até o meu casamento: enclausurada e suspeita, as criadas espiam-me, a minha escrivaninha é a miúdo revolvida [sic]: sofro injusta opressão... e sinto-me ameaçada pela prepotência e... oh, tia Suzana... chego a temer o crime...
Suzana Pobre menina! Tem paciência, espera.
Corina Sim, espero; mas sem mãe, sem pai, educada na desconfiança, no medo, nos sofrimentos e nas aflições, de cinco anos de orfandade, sou o que me fizeram ser, sou fingida, e espero, sim espero, escudando-me com o fingimento.
Suzana Era mais nobre ser franca, mas deveras nunca fingiste para enganar-me.
Corina Nunca, porque a tia Suzana desde o primeiro dia em que me falou, falou-me a linguagem que em pequenina eu ouvi da minha mãe.
Suzana Obrigada... podes confiar na velha Suzana...
Corina Com o coração todo aberto e os seus olhos, como eu o abria aos olhos de minha mãe...
Suzana Mas... se nela guardasses um segredo...
Corina Seria seu... e sem reservas. Até hoje a tia Suzana é o único seio leal e amigo que tem acolhido e consolado a triste órfã!...
Suzana Órfã!... Órfã!... Não me chamarás em vão tua mãe!... Serás minha filha. (abraça-a) Voz de mulher, dentro Uma esmola à pobre velha pelo amor de Deus!
Corina (estremece) Oh, é a minha pobre! Posso ir dar-lhe esmola?
Suzana Vai... vai... e abençoada sejas, porque estendes a mão da caridade ao pobre! (Corina vai-se pela porta do jardim: Suzana levanta-se e a segue, abençoando-a, risonha; mas recua da porta e vem sentar-se triste)
Corina (voltando alegre) Já se foi.
Suzana
Os outros pobres esmolam à escada da frente, como é
que esta vem até aqui, entrando pelo jardim?
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.