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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Leonina — Sim, foi o primeiro homem a quem amei, será o último a quem ame; amei-o, e quantas o viram invejaram-me o seu amor; mas desde que soube no Clube que ele era pintor e filho de um marceneiro, todas as senhoras riram-se de mim, ou mostraram-se compadecidas do meu erro...a vaidade falou...e a vaidade fez-me esquecer o amor.

Anastácio — Continua; desta vez o vento não soprou.

Leonina — Agora, tudo está acabado; e esse amor não passa de um sonho belo...suavíssimo...e ainda assim...bem triste!

Anastácio — Mas se teu primo ainda te amasse como dantes?...

Leonina — Embora, a vergonha que me acanha e o ressentimento que ele deve guardar, levantaram entre nós uma barreira insuperável. Anastácio — Bravo, Leonina!...

Leonina — Que estou eu a dizer? Oh! meu padrinho, jure-me que não dirá a meu primo uma só das palavras que me ouviu.

Anastácio — Juro-te um milhão de vezes; mas desconfio muito que ele já saiba de tudo...

Leonina — Como?...

Anastácio — O vento, Leonina, o vento!...

Leonina — Meu Deus!...

Henrique (Aparecendo) — Adoro-te, Leonina! Adoro-te, como no primeiro dia do nosso amor!...

Leonina — Ah! Meu padrinho atraiçoou-me.

Anastácio — É a segunda vez que hoje me acusam de traidor...mas...aí temos conosco a velha Fabiana com o ilustre comendador.

Leonina — Oh! que não me encontrem aqui...

Henrique — Não tenha receio; eu me retiro por este lado...não...lá vejo o coronel Reinaldo...seguirei esta rua...é impossível...iria encontrar-me com seus pais, minha senhora...

Anastácio — Em tal caso recolhe-te aos bambus; é o recurso que te resta; e adeus, que me resolvi a jantar com Leonina. (Henrique oculta-se) Vem, menina, fujamos...aquela mulher é a peste (Vão-se).

CENA V

Fabiana, e o Comendador Pereira.

Pereira — Não é tanto assim, minha senhora; convenho em que um homem na minha posição, um milionário, comendador e em vésperas talvez de ser barão, deva despertar as simpatias das senhoras; mas ás vezes elas têm idéias tão extravagantes, que podem chegar até a desprezar uma personagem da minha ordem, por algum doutorzinho, ou mesmo por uma qualquer coisa assim a modo de artista...

Fabiana — Mas, Dona Leonina tem bastante juízo para não cair em tal; fale-lhe em casamento e verá; eu sou muito amiga de Dona Hortênsia e sei em que princípios educou a filha; Dona Leonina é um anjo de virtudes, e o seu único defeito, que proveio da educação que recebeu, é ainda uma garantia para o amor de Vossa Excelência.

Pereira — E qual é esse defeito?...

Fabiana — Preferir a tudo a riqueza; se Vossa Excelência fosse pobre, apesar de todo o seu merecimento, duvido que conseguisse ser amado; rico porém como é, pode contar com o amor de Dona Leonina.

Pereira — Sim...até certo ponto ela tem razão; porque enfim, o dinheiro é uma grande coisa; mas...por outro lado...isso não me parece muito lisonjeiro...

Fabiana — Pelo contrário...Olhe, quero contar-lhe em segredo: Dona Leonina amava não sei por que ao coronel Reinaldo; o galanteio entre ambos tinha ido além de certos limites; desde porém que Vossa Excelência se apresentou como pretendente, o coronel, embora tenha ainda licença para amar, perdeu já a esperança do casamento.

Pereira — Era de prever: desde que se mostrava um homem rico, um comendador, talvez em vésperas de ser barão...mas, pelo que vejo, conta-se comigo...

Fabiana — Se se conta! Dona Leonina não cabe em si de contente: e os pais então! Esses estão entusiasmados: excelente família! É o céu que lhe depara este casamento. Senhor comendador, Vossa Excelência está destinado a ser o salvador desta honrada gente, porque o senhor Maurício, segundo dizem, deve tanto...tanto...que terá de sofrer alguma horrível desgraça, se lhe não valer um genro dedicado e generoso.

Pereira — Mas eu penso que um genro não tem obrigação de pagar as dívidas do sogro...

Fabiana — E que há de fazer Vossa Excelência, quando sua esposa, banhada em pranto, lhe pedir que salve a se pai?...que diferença farão em sua fortuna, quarenta ou cinqüenta contos de menos?...Deixemos porém isso, arrependo-me até de ter falado em tal; o que lhe importa saber é que Dona Leonina o ama apaixonadamente.

Pereira — Vossa Excelência o assegura com toda a certeza?

(continua...)

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