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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Aqui se perdeu o bispo do Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha, com sua nau vinda da Bahia para Lisboa, em a qual vinha Antônio Cardoso de Barros, provedor-mor que fora do Brasil, e dois cônegos e duas mulheres honradas e casadas, muitos homens nobres e outra muita gente, que seriam mais de cem pessoas brancas, afora escravos, a qual escapou toda deste naufrágio, mas não do gentio caeté, que neste tempo senhoreava esta costa da boca deste rio de São Francisco até o da Paraíba; depois que estes caetés roubaram este bispo e toda esta gente de quanto salvaram, os despiram e amarraram a bom recado, e pouco a pouco os foram matando e comendo, sem escapar mais que dois índios da Bahia com um português que sabia a língua, filho do meirinho da correição. A terra que há por cima desta enseada até perto do rio de São Francisco é toda alagadiça, cuja água se ajunta toda em uma ribeira, que se dela faz, a qual vai entrar no rio de São Francisco até o porto das Pedras nor-nordeste su-sudoeste, e toma da quarta de norte sul.

C A P Í T U L O XIX

Que trata de quem são estes caetés, que foram moradores na costa de Pernambuco.

Parece que não é bem que passemos adiante do rio de São Francisco sem dizermos que gentio é este caeté, que tanto mal tem feito aos portugueses nesta costa, o que agora cabe dizer deles.

Este gentio, nos primeiros anos da conquista deste estado do Brasil, senhoreou desta costa da boca do rio de São Francisco até o rio Paraíba, onde sempre teve guerra cruel com os potiguares, e se matavam e comiam uns aos outros em vingança de seus ódios, para execução da qual entravam muitas vezes pela terra dos potiguares e lhes faziam muito dano. Da banda do rio de São Francisco guerreavam estes potiguares em suas embarcações com os tupinambás, que viviam de outra parte do rio, em cuja terra entravam a fazer seus saltos, onde cativavam muitos, que comiam sem lhes perdoar. As embarcações de que este gentio usava, eram de uma palha comprida como a das esteiras de tábua que fazem em Santarém, a que eles chamam periperi, a qual palha fazem em molhos muito apertados, com umas varas como vime, a que eles chamam timbós, que são muito brandas e rijas, e com estes molhos atados em umas varas grossas faziam uma feição de embarcações, em que cabiam dez a doze índios, que se remavam muito bem, e nelas guerreavam com os tupinambás neste rio de São Francisco, e se faziam uns a outros muito dano. E aconteceu por muitas vezes fazerem os caetés desta palha tamanhas embarcações que vinham nelas ao longo da costa fazer seus saltos aos tupinambás junto da Bahia, que são cinquenta léguas. Pela parte do sertão, confinava este gentio com os tapuias e tupinaés, e se faziam cruéis guerras, para cujas aldeias ordinariamente havia fronteiros, que as corriam e salteavam. E quando os caetés matavam, ou cativavam alguns contrários destes, tinham-no por mor honra, que não quando faziam outro tanto aos potiguares nem aos tupinambás. Este gentio é da mesma cor baça, e tem a vida e costumes dos potiguares e a mesma língua, que é em tudo como a dos tupinambás, em cujo título se dirá muito de suas genti-lidades.

São estes caetés mui belicosos e guerreiros, mas mui atraiçoados, e sem nenhuma fé nem verdade, o qual fez os danos que fica declarado à gente da nau do bispo, a Duarte Coelho, e a muitos navios e caravelões que se perderam nesta costa, dos quais não escapou pessoa nenhuma, que não matassem e comessem, cujos danos Deus não permitiu que durassem mais tempo; mas ordenou de os destruir desta maneira. Confederaram-se os tupinambás seus vizinhos com os tupinaés pelo sertão, e ajuntaram-se uns com os outros pela banda de cima, de onde os tapuias também apertavam estes caetés, e deram-lhe nas costas, e de tal feição os apertaram, que os fizeram descer todos para baixo, junto do mar, onde os acabaram de desbaratar; e os que não puderam fugir para a serra do Aquetiba, não escaparam de mortos ou cativos. Destes cativos iam comendo os vencedores quando queriam fazer suas festas, e venderam deles aos moradores de Pernambuco e aos da Bahia infinidade de escravos a troco de qualquer coisa, ao que iam ordinariamente caravelões de resgate, e todos vinham carregados desta gente, a qual Duarte Coelho de Albuquerque por sua parte acabou de desbaratar.

(continua...)

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