Por Padre Antônio Vieira (1647)
O martírio, como lhe chama a Igreja, é um compêndio ou atalho brevíssimo do caminho da glória, porque o mártir, sem dar mais que um passo, com um pé na terra e outro no céu, entra da morte à bemaventurança. Por aquela morte se lhe não pede conta da vida; por aquela pena se lhe perdoam todas as penas que devia por seus pecados. E posto que tivesse sido o maior pecador, no mesmo ponto fica santo. Grande felicidade por certo, e muito para desejar! Mas os mártires que assim passaram ao céu, por onde passaram? Uns por cruzes, outros por grelhas, outros por rodas de navalhas, outros pelas unhas e dentes das feras, e todos por tantos e tão atrozes tormentos, que muitos, por medo e horror de tão cruéis mortes, se escondiam e fugiam do martírio, e outros, estando já nele, por não lhes bastar a fortaleza e constância para sofrer, desmaiavam e retrocediam. Vede agora quanto mais fácil é ir direito ao céu por uma indulgência da Bula da Cruzada, que de cruz não tem mais que o nome. O mártir sobe direito ao céu, mas por tantos tormentos e tão arriscados; vós com a indulgência plenária também subis direito ao céu, mas sem tormento, nem risco. Por isso o sangue que significava o martírio, não saiu do lado de Cristo vivo com dor, senão do lado morto e insensível, porque as graças que manaram daquela fonte divina, se bem logram os privilégios de martírio, são martírio sem tormento.
E se é grande prerrogativa a da indulgência plenária, por ser como o martírio, mas sem tormento, não é menor, nem menos privilegiada, por ser como o Batismo, mas com repetição. A graça do sacramento do Batismo é tão maravilhosa por grande, como por fácil. Que maior maravilha, e que maior facilidade, que um homem carregado de pecados, e obrigado por eles a penas eternas, purificarse de toda a culpa e livrar-se de toda a pena, só com se lavar, ou o lavarem com uma pouca de água? Mas esta mesma graça tão grande, e esta mesma maravilha e facilidade, se é lícito falar assim, tem um notável defeito. E qual é? Não se poder o batismo reiterar, nem repetir. O homem, uma vez batizado, não se pode batizar outra vez. Essa foi a razão (como lemos em Santo Agostinho) porque muitos dos antigos catecúmenos, conhecendo esta limitação, e que não se podiam batizar mais que uma só vez, ou dilatavam o batismo para a morte, ou quando menos para a velhice, reservando, e como poupando a eficácia daquele remédio, para o tempo da maior necessidade. Era abuso, e por isso se proibiu justificadamente. Mas se o Batismo se pudera repetir, e um homem se pudesse rebatizar todas as vezes que quisesse, não há dúvida que seria graça sobre graça, e um excesso de favor muito mais para estimar. Pois isto mesmo que Deus não concedeu a todos pelo sacramento do batismo, nos concede hoje a nós pela bula da Santa Cruzada. Porque sendo a indulgência plenária, como batismo em purificar de culpa e pena, é juntamente como Batismo com repetição, porque se pode repetir e reiterar muitas vezes. O batismo é fonte que se abre uma só vez, e se torna a cerrar para sempre; mas a indulgência da Bula é fonte que se abre hoje, e todos os anos, e não se torna a cerrar, antes fica continuamente aberta. Por isso o lado de que saiu a água, que significava o batismo, de tal maneira se abriu estando Cristo morto, que não se tornou a cerrar, nem depois de ressuscitado. Aberto uma vez, e sempre aberto: Lancea latus ejus aperuit, et continuo exivit sanguis et aqua.
§IX
A segunda lançada e as queixas de Cristo à sua Igreja. Naamã Siro e o desprezo do remédio pela facilidade.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.