Por Padre Antônio Vieira (1669)
Pois por certo que não nos faltam experiências muito claras e muito caras, para as conhecer, se não fôramos cegos sobre cegos. Olhai para as vossas quedas, e vereis as vossas cegueiras. Quando Tobias ouviu que vinha chegando seu filho, de cuja vinda e vida já quase desesperava, foi tal o seu alvoroço, que, levantando-se, remeteu a correr para o ir encontrar e receber nos braços. Tende mão, velho enganado! Não vedes que sois cego? Não vedes que não podeis andar por vós mesmo, quanto mais correr? Não vedes que podeis cair, e que pode ser tal a queda, que funeste um dia tão alegre, e entristeça todo este prazer vosso e de vossa casa? Assim foi em parte, porque a poucos passos titubantes e malseguros tropeçou Tobias e deu consigo em terra: Consurgens caecus pater ejus caepit offendens pedibus currere, et pralapsus est, diz o texto grego.25 Levantado porém em braços alheios, deu a mão o cego, já menos cego, a um criado, e com este arrimo, sem novo risco, chegou a receber o filho: Et data manu puero occurrit filio suo. De maneira que o alvoroço, a alegria súbita e o amor, cegaram de tal sorte a Tobias, que não viu, nem reparou na sua cegueira; porém, depois que caiu, a mesma queda o fez conhecer que era cego e que, como cego, se devia pôr nas mãos de quem o sustentasse e guiasse. Todas as coisas se vêem com os olhos abertos, e só a própria cegueira se pode ver com eles fechados. Mas quando ela é tão cega que não se vê a si mesma, as quedas lhe abrem os olhos para que se veja. Caíram os primeiros pais tão cegamente, como vimos, e quando se lhes abriram os olhos para verem a sua cegueira? Depois que se viram caídos: Et aperti sunt oculi amborum.26 O apetite os cegou e a caída lhes abriu os olhos. Que filho há de Adão que não seja cego? E que cego, que não tenha caído uma e muitas vezes? E que não bastem tantas caídas e recaídas para conhecermos a nossa cegueira? Se caís em tantos tropeços quantas são as vaidades e loucuras do mundo, por que não acabais de cair em que sois cego, e por que não buscais quem vos levante e vos guie? Só vos digo que se derdes a mão para isso a algum criado, como fez Tobias, que seja tão seguro criado, e de tão boa vista, que saiba por onde põe os pés, e que vos possa guiar e suster. E quando ainda assim lhe derdes a mão, adverti que não seja tanta, que se cegue também ele com a vossa graça, e vos leve a maiores precipícios. Mas já é tempo que demos a razão desta última cegueira, como das demais.
Parece coisa
incrível e impossível que um cego não conheça que é cego. Mas como já temos
visto que há muitos cegos desta espécie, resta saber a causa de tão estranha e
tão cega cegueira. Se algum cego pudera haver que se não conhecesse, era o
nosso cego do Evangelho, porque era cego de seu nascimento, e quem não conhece
a vista, não é muito que não conhecesse a cegueira. Ele porém é certo que a
conhecia, e nós falamos de cegos com os olhos abertos, que sabem o que é ver e
não ver. Qual é logo, ou qual pode ser a causa por que estes cegos se ceguem
tanto com a sua cegueira, e que a não conheçam? Outros darão outras causas, que
para errar há muitas. A que eu tenho por certa e infalível, é a muita presunção
dos mesmos cegos. A causa da primeira cegueira, como vimos, é a desatenção; a
da segunda, a paixão e a desta terceira, e maior de todas, a presunção. Nos
mesmos escribas e fariseus temos a prova. Deles disse Cristo noutra ocasião a
seus discípulos: Sinite eos: caeci sunt, et duces caecorum (Mt. 15,14): Deixai-os,
que são cegos e guias de cegos. Mas por isso mesmo é bem que nós os não
deixemos agora. Se eram cegos e não viam, como eram, ou se faziam guias de
cegos? Porque tanta como isto era a sua presunção. Para um cego guiar cegos, é
necessário que tenha dois conhecimentos contrários: um, com que conheça os
outros por cegos, e outro com que conheça, ou tenha para si que ele o não é. E
tal era a presunção dos escribas e fariseus. Nos outros, conheciam que a
cegueira era cegueira; em si, estimavam que a sua cegueira era vista. Por isso,
sendo tão cegos como os outros cegos, em vez de buscarem guias para si,
faziam-se guias dos outros e se vendiam por tais. Se víssemos que um cego
andasse apregoando e vendendo olhos, não seria riso das gentes e da mesma natureza?
Pois essa era a farsa que representava nos tribunais de Jerusalém a cegueira e
presunção daqueles gravíssimos ministros, e esse era o altíssimo conceito que
eles tinham dos seus olhos. Toupeiras com presunção de linces.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.