Por Padre Antônio Vieira (1655)
Eu não sei como não treme a mão a todos os ministros de pena, e muito mais àqueles que sobre um joelho, aos pés do rei, recebemos seus oráculos, e os interpretam e estendem. Eles são os que, com um advérbio, podem limitar ou ampliar as fortunas; eles os que, com uma cifra podem adiantar direitos e atrasar preferências; eles os que, com uma palavra, podem dar ou tirar peso à balança da justiça; eles os que, com uma cláusula equívoca ou menos clara, podem deixar duvidoso e em questão o que havia de ser certo e efetivo; eles os que, com meter ou não meter um papel, podem chegar e introduzir a quem quiserem, e desviar e excluir a quem não quiserem; eles, finalmente, os que dão a última forma às resoluções soberanas, de que depende o ser, ou não ser de tudo. Todas as penas, como as ervas, têm a sua virtude; mas as que estão mais chegadas à fonte do poder são as que prevalecem sempre a todas as outras. São por oficio ou artifício, como as penas da águia, das quais dizemos naturais, que postas entre as penas das outras aves, a todas comem e desfazem. Ouçam estas penas pelo que têm de reais, o que delas diz o Espírito Santo: In manu Dei potestas terrae, et utilem rectorem suscitabit in tempus super illam. In manu Dei prosperitas hominis, et super faciem scribae ponet honorem suum.18 Escriba, neste lugar, como notam os expositores, significa o ofício daqueles que junto à pessoa do rei escrevem e distribuem os seus decretos. Assim se chama na Escritura Saraias, escriba do rei Davi, e Sobna, escriba del el-rei Ezequias.19 Diz poiso Espírito Santo: O poder e império dos reis está na mão de Deus, porém a honra de Deus pô-la o mesmo Deus na mão dos que escrevem aos reis: Et super faciem scribae imponet honorem suum. Pode haver ofício mais para gloriar por uma parte, e mais para tremer por outra? Grande crédito e grande confiança argúi, que nestas mãos e nestas penas ponham os reis a sua honra; mas muito maior crédito e muito maior confiança é que diga o mesmo Deus que põe nelas a sua. Quantas empresas de grande honra de Deus puderam estar muito adiantadas, se estas penas, sem as quais se não pode dar passo, as zelaram e assistiram como era justo! E quantas, pelo contrário, se perdem e se sepultam, ou porque falta o zelo e diligência, ou porque sobeja o esquecimento e o descuido, quando não seja talvez a oposição!
Do rei, que logo direi, falava o profeta Malaquias debaixo do nome de Sol de Justiça, quando disse que nas suas penas estava a saúde do mundo: Orietur vobis sol justitiae, et sanitas in pennis ejus.20 Chama penas aos raios do sol, porque assim como o sol, por meio de seus raios alumia, aquenta e vivifica a todas as partes da terra, assim o rei, que não pode sair do seu zodíaco, por meio das penas que tem junto a si, dá luz, dá calor, e dá vida a todas as partes da monarquia, ainda que ela se estenda fora de ambos os trópicos, como a do sol e a nossa: Et sanitas in pennis ejus. – Se as suas penas forem sãs e tão puras como os raios do sol, delas nascerá todo o bem e felicidade pública: mas se em vez de serem sãs forem corruptas, e não como raios do sol, senão como raios, elas serão a causa de todas as ruínas e de todas as calamidades. Se perguntardes aos gramáticos donde se deriva este nome calamidade: calamitas, responder-vos-ão que de calamo. E que quer dizer calamo? Quer dizer cana e pena, porque as penas antigamente faziam-se de certas canas delgadas. Por sinal que diz Plínio que as melhores do mundo eram as da nossa Lusitânia. Esta derivação ainda é mais certa na política que na gramática. Se as penas de que se serve o rei não forem sãs, destes cálamos se derivarão todas as calamidades públicas, e serão o veneno e enfermidade mortal da monarquia, em vez de serem a saúde dela: Sanitas in pennis ejus. O rei de que fala neste lugar Malaquias é o Rei dos Reis, Cristo, e as penas com que ele deu saúde ao mundo, todos sabemos que são as dos quatro evangelistas, e essas assistidas do Espírito Santo. Para que advirtamos evangelistas dos príncipes a verdade, a pureza, a inteireza que devem imitar as suas penas, e como em tudo se hão de mover pelo impulso soberano, e em nada por afeto próprio. Se as suas escrituras as pomos sobre a cabeça como sagradas, seja cada uma delas um evangelho humano.
Porém se
sucedesse alguma vez não ser assim, ou por desatenção das penas maiores, ou por
corrupção das inferiores, de que elas se ajudam, julguem as consciências, sobre
que carregam estes escrúpulos, se têm muito que examinar, e muito que
confessar; e muito que restituir em negócios e matérias tantas e de tanto peso!
Que possa isto suceder, e que tenha já sucedido, o profeta Jeremias o afirma:
Vere mendacium operatus est stylus mendax scribarum. Ou como lê o caldaico:
Fecit calamum mendacii ad falsandas scripturas.21 E suposto que isto não só é
possível, mas já foi praticado e visto naquele tempo, bem é que saiba o nosso,
quanto bastará para falsificar uma escritura. Bastará mudar um nome? Bastará
mudar uma palavra? Bastará mudar uma cifra? Digo que muito menos basta. Não é
necessário para falsificar uma escritura mudar nomes, nem palavras, nem cifras,
nem ainda letras: basta mudar um ponto ou uma vírgula.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.