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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Quid oremus, sicut oportet, nescimus: ipse outem Spiritus postulat pro nobis gemitibus inenarrabilibus (Rom. 8,26). Nós não sabemos o que pedimos: Nescitis quid petatis. Nós não sabemos pedir o que nos convém: Quid oremus, sicut oportet nescimus. E que faz Deus, autor de nossa predestinação e salvação, quando pedimos o que é contrário a ela? Ipse outem Spiritus postulat pro nobis gemitibus inenarrabilibus: O mesmo Espírito Santo, diz S. Paulo, por sua infinita bondade e misericórdia, troca, emenda, e ordena as nossas petições, e ele mesmo pede por nós a si mesmo, com gemidos que se não podem declarar: Gemiribus inenarrabilibus. De sorte que quando pretendemos o que encontra a nossa salvação, nós pedimos na terra, e o Espírito Santo geme no céu; nós fazemos instâncias, e ele dá ais. Ai, homem cego, que não sabes o perigo em que te metes! Ai, que se quer perder aquela pobre alma! Ai, que anda solicitando sua condenação! Ai, que pretende aquele oficio! Ai, que pretende aquela judicatura! Ai, que pretende aquele concelho! Ai, que pretende aquele governo! Ai, que se alcança o que pretende vai para o inferno! Pretende o Brasil: se vai ao Brasil perde-se; pretende Angola: se vai à Angola, condena-se; pretende a Índia: se passa o Cabo de Boa Esperança, lá vai a esperança da sua salvação. Assim geme o Espírito Santo por nos desviar do que pretendemos com tantas ânsias, porque não sabemos o que pedimos: Quid oremus, sicut oportet nescimus.

Pois que há de fazer um homem depois de servir tantos anos? Não há de pretender? Não há de requerer? Pode ser que esse fora o melhor conselho. Mas não digo tanto, porque não vejo tanto espírito. O que só digo é, pelo que cada um deve à sua salvação, que o nosso modo de requerer seja este. Ponde a petição na mão do ministro, e o despacho nas mãos de Deus. Senhor, eu não sei o que peço; o que mais convém à minha salvação só vós o sabeis; vós o encaminhai, vós o disponde, vós o resolvei. Com isto, ou saireis despachado ou não: se sairdes despachado, aceitai embora a vossa portaria ou a vossa provisão, e começai a temer e tremer, porque pode ser que aquela folha de papel seja uma carta de Urias (2 Rs. 17,15). Urias levava no seio a sua carta, cuidando que era um grande despacho, e era a sentença da sua morte. Cuidais que levais no vosso despacho o vosso remédio e o vosso oumento, e pode ser que leveis nele a sentença de vossa condenação. Não lhe fora melhor a Pilatos não ser julgador? Não lhe fora melhor a Caifás não ser pontífice? Não lhe fora melhor a Herodes não ser rei? Todos esses se condenaram pelo ofício, e mais com Cristo diante dos olhos. Mas se fordes tão venturosamente desgraçado que não consigais o despacho, consolai-vos com esses exemplos e com o de S. João e São Tiago. Se Cristo não despacha a dois vassalos tão beneméritos, folgai de ser assim benemérito. Se Cristo não despacha a dois criados tão familiares de sua casa, folgai de ser assim da casa de Cristo. Se Cristo não despacha os dois discípulos tão amados, folgai de ser assim amado seu, e entendei que vos não despachou Deus, nem quis que vos despachassem, porque não sabíeis o que pedíeis e porque sois predestinado. Lá, na outra vida, haveis de viver mais que nesta; se aqui tiverdes trabalhos, lá tereis descanso; se aqui não tiverdes grandes lugares, lá tereis o lugar que só é grande; e se até aqui vos faltar a graça dos homens, lá tereis a graça de Deus e o prêmio desta graça, que é a glória.

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