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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Falava-se nessa noite do Alentejo, de Évora e das suas riquezas, da capela dos ossos, quando o Conselheiro entrou com o paletó no braço. Foi-o dobrar solicitamente numa cadeira a um canto, e no seu passo aprumado e oficial veio apertar as mãos ambas de Luísa, dizendo-lhe com uma voz sonora, de papo:

- Minha boa senhora D. Luísa, de perfeita saúde, não? O nosso Jorge tinha-mo dito. Ainda bem! Ainda bem!

Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até à calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos que de uma orelha à outra lhe faziam colar por trás da nuca - e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, caído aos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do crânio.

Fora, outrora, diretor-geral do Ministério do Reino, e sempre que dizia "El-rei!" erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviais; não dizia vomitar, fazia um gesto indicativo e empregava restituir. Dizia sempre "o nosso Garrett, o nosso Herculano". Citava muito. Era autor. E sem família, num terceiro andar da Rua do Ferregial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia política: tinha composto os Elementos genéricos da ciência da riqueza e a sua distribuição, segundo os melhores autores, e como subtítulo: Leituras do serão! Havia apenas meses publicara a Relação de todos os ministros de Estado desde o grande Marquês de Pombal até nossos dias, com datas cuidadosamente averiguadas de seus nascimentos e óbitos.

- Já esteve no Alentejo, Conselheiro? - perguntou-lhe Luísa.

- Nunca, minha senhora - e curvou-se. - Nunca! E tenho pena! Sempre desejei lá ir, porque medizem que as suas curiosidades são de primeira ordem.

Tomou uma pitada de uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e acrescentou com pompa:

- De resto, país de grande riqueza suma!

- Ó Jorge, averigua quanto é o partido da Câmara em Évora - disse Julião do canto do sofá.

O Conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa:

- Devem ser seiscentos mil réis, Sr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o nos meus apontamentos. Porque, Sr. Zuzarte, quer deixar Lisboa?

- Talvez!...

Todos desaprovaram.

- Ah! Lisboa sempre é Lisboa! - suspirou D. Felicidade.

- "Cidade de mármore e de granito", na frase sublime do nosso grande historiador! - dissesolenemente o Conselheiro.

E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados. D. Felicidade disse então:

- Quem não era capaz de deixar Lisboa nem à mão de Deus Padre, era o Conselheiro!

O Conselheiro, voltando-se vagarosamente para ela, um pouco curvado, replicou:

- Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta de alma!

- O Conselheiro - lembrou Jorge - nasceu na Rua de São José.

- Número setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegado àquela em que viveu, até casar, o meuprezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!

Geraldo, o seu pobre Geraldo era o pai de Jorge. Acácio fora o seu íntimo. Eram vizinhos.

Acácio tocava então rabeca, e, como Geraldo tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo à Filarmônica da Rua de São José. Depois Acácio, quando entrou nas repartições do Estado, por escrúpulo e por dignidade, abandonou a rabeca, os sentimentos ternos, os serões joviais da Filarmônica. Entregou-se todo à Estatística. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquela amizade vigilante; fora padrinho do seu casamento, vinha vê-lo todos os domingos, e, no dia dos seus anos, mandava-lhe pontualmente, com uma carta de felicitações, uma lampreia de ovos.

- Aqui nasci - repetiu, desdobrando o seu belo lenço de seda da Índia - e aqui conto morrer.

E assou-se discretamente.

- Isso ainda vem longe, Conselheiro!

Ele disse, com uma melancolia grave:

- Não me arreceio dela, meu Jorge. Até já fiz construir, sem vacilar, no Alto de São João, a minha última morada. Modesta, mas decente. É ao entrar, no arruamento à direita, num lugar abrigado, ao pé da choça dos Veríssimos amigos.

- E já compôs o seu epitáfio, Sr. Conselheiro? - perguntou Julião, do canto, irônico.

- Não o quero, Sr. Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios. Se os meus amigos, os meuspatrícios entenderem que eu fiz alguns serviços, têm outros meios para os comemorar: lá têm a imprensa, o comunicado, o necrológio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero apenas sobre a lápide lisa, em letras negras, o meu nome - com a minha designação de Conselheiro - a data do meu nascimento e a data do meu óbito.

E com um tom demorado, de reflexão:

- Não me oponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores:

"Orai por ele!"

(continua...)

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