Por Eça de Queirós (1870)
Nós esperávamos, petrificados, o fim daquelas confissões.- Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na mão tinha este papel. E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada. — Leia — disse ele ao mascarado.Este aproximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com os braços pendentes, os olhos cerrados.
Ergui o papel, li:
I declare that I have killed myself with opium. (Declaro que me matei com ópio). Fiquei petrificado. O mascarado dizia com a voz absorta como num sonho:- Não é possível. Mas é a letra dele, é! Ah! que mistério, que mistério!
Vinha a amanhecer. Sinto-me fatigado de escrever. Quero aclarar as minhas recordações. Até amanhã.
VI
Peço-lhe agora toda a sua atenção para o que tenho de contar-lhe. A madrugada vinha. Sentiam-se já os ruídos da povoação que desperta. A rua não eramacadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a calçada. Também não era uma rua larga, porque o eco das carroças era profundo, cheio e próximo. Ouvia pregões. Nãosentia carruagens.
O mascarado tinha ficado numa prostração extrema, sentado, imóvel, com a cabeça apoiada nas mãos.O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encosta do no sofá, com os olhos cerrados, como adormecido.Eu abri as portas da janela: era dia. Os transparentes e as per sianas estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candeeiros. Entrava uma luz lúgubre, esverdeada.
— Meu amigo — disse eu ao mascarado -, é dia. Coragem! É necessário fazer o exame do quarto, móvel por móvel.
Ele ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma cama, e àcabeceira uma pequena mesa redonda, cober ta com um pano de veludo verde. A cama não estava desmanchada, cobria-a um adredão de cetim encarnado. Tinha um só travessei ro largo, alto e fofo, como se não usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vazio e umajarra com flores murchas. Havia um lavatório, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas dobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova estava umabengala grossa com estoque.
Na disposição dos objectos na sala não havia nenhuma parti cularidade significativa. O exame dela dava na verdade a per suasão de que se estava numa casa raramente habitada,visitada a espaços apenas, sendo um lugar de entrevistas, e não um interior regular.
A casaca e o colete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos via-se nochão, ao pé da chaise-longue; o chapéu acha va-se sobre o tapete, a um canto, comoarremessado. O paletó estava caído ao pé da cama.
Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: não se encontrou carteira, nembilhetes, nem papel algum. Na algibeira do colete estava o relógio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha de ouro, com dinheiro miúdo. Não se lhe encontroulenço. Não se pôde averiguar em que tivesse sido trazido de forno ópio; não apareceu frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em liquido ou em pó; e foi a primeira dificuldade que no meu espírito se apresentou contra o suicídio.Perguntei se não havia na casa outros quartos que comunicas sem com aquele aposento e que devêssemos visitar.
— Há — disse o mascarado -, mas este prédio tem duas entra das e duas escadas. Oraaquela porta, que comunica com os demais quartos, encontrámo-la fechada pelo outro lado quando chegámos aqui. Logo este homem não saiu desta sala depois que subiu da rua e antesde morrer ou de ser morto.
Como tinha então trazido o ópio? Ainda quando o tivesse já no quarto, o frasco, ou qualquer invólucro que contivesse o narcótico devia aparecer. Não era natural que tivessesido aniquilado. O copo em que ficara o resto da água opiada, ali estava. Um indício mais grave parecia destruir a hipótese do suicídio: não se encon trou a gravata do morto. Não eranatural que ele a tivesse tirado, que a tivesse destruído ou lançado fora. Não era também racional que tendo vindo àquele quarto esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, não trouxesse gravata. Alguém, pois, tinha estado naquela casa, ou pouco antesda morte ou ao tempo dela. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado a gra vata do morto.Ora a presença de alguém naquele quarto, coincidindo com a estada do suposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicídio e dava presunções ao crime.
Aproximámo-nos da janela, examinámos detidamente o papel em que estava escrita adeclaração do suicida:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.