Por Eça de Queirós (1925)
— O pior é o falatório!
Godofredo não disse nada, o outro petiscou lume, acendeu pausadamente o cigarro.
— E a você, na sua posição, na praça, não lhe faz senão mal...
Godofredo voltou-se impaciente.
— E de quem é a culpa?
Pois bem... Mas enfim, o melhor seria evitar o falatório. Pelo menos naqueles primeiros tempos...
Margarida entrou com o café. Godofredo sentara-se. E remexendo o açúcar, um diante do outro, o genro e o sogro, estiveram um momento calados. Neto provou o café, deitou-lhe ainda mais açúcar. Depois deu duas fumaças. E voltou à sua idéia:
— Nem para você, nem para mim, é bom que se ponham pôr aí a falar.
Então aquelas lentidões, aquelas pausas irritaram Godofredo.
— Mas que diabo! Que quer que eu lhe faça?
Mas Neto conservava agora o seu ar calmo e refletido. E com uma voz tranqüila falou dos seus sentimentos. Ele sempre se tivera pôr bom pai; e, se não fossem as circunstâncias em que estava, não teria aceitado mesada para sua filha... Não teria exigido nada. Levava-a para casa, lá viveriam todos, e acabou-se... E tudo o que fosse necessário para fazer cessar o escândalo fá-lo-ia à sua conta.
Godofredo começava a perceber. O Neto tinha uma outra idéia para apanhar dinheiro : e ele quis logo as coisas claras.
— Vamos lá a saber, sem mais circunlóquios, o que o senhor pensa.
Mas o Neto continuou com circunlóquios. O melhor meio de evitar o escândalo. O melhor meio de evitar o escândalo era sair de Lisboa. E a estação favorecia-os, era o tempo de ir para banhos, ninguém se admiraria que ele fosse pôr exemplo para a Ericeira levando sua filha casada. Todo o mundo suporia que Alves não podia acompanhá-la, nem deixar os seus negócios... Mas ninguém sabia se ele ia ou não ver sua mulher todas as semanas. A idéia era famosa, mas... Godofredo interrompeu-o:
— Mas quer que eu lhe dê o dinheiro para isso...
— A não ser que eu o vá roubar – ajuntou o outro muito francamente.
Godofredo refletiu. Havia ali uma maneira hábil de ir passar o verão para a praia, à custa dele; mas ao mesmo tempo a idéia era prática, matava o falatório. Aceitou. E num instante regularam os detalhes. Para o aluguel da casa na Ereceira, jornadas, transporte de alguma mobília, o Godofredo dava trinta libras; e nos meses de agosto, setembro e outubro, a mesada à filha, para despesas de praia, seria elevada a cinqüenta mil réis. E apenas dissera isto, ergue-se, querendo pôr todos os modos cessar aquela entrevista.
— E não falemos mais nisto, que tenho a cabeça em água.
Estava com efeito pálido como um morto, com um começo de enxaqueca, um desejo de se deitar, de adormecer pôr muito tempo.
Mas Neto, de pé, ainda queria dizer uma última palavra. De ora em diante, ele era o responsável pôr sua filha. Confiava em Deus, tinha a certeza que mais tarde, passado aquele primeiro desgosto, haveria mútua indulgência, e eles se viriam a juntar...
Godofredo negou, com um movimento de cabeça, um sorriso doloroso. Não, nunca de juntaria com ela.
— O futuro pertence a Deus – disse Neto. – Agora concordo que é melhor que estejam separados pôr algum tempo. E era a isto que eu queria chegar: enquanto ela estiver em minha casa, é como se estivesse num convento...
Respondo pôr ela.
Godofredo fez com os ombros um movimento vago. Tudo aquilo lhe parecia palavreado. O que queria agora era estar só. Tinha tocado a campainha, Margarida preparava-se para abrir a porta, alumiar ao sr. Neto. Ele tomou o seu chapéu, bebeu, já de pé, o último gole de café, e depois de apertar a mão do genro, saiu, recomendando baixo à criada que tivesse prontas as malas da senhora...
— E manda dizer que não lhe esqueça aquele açucareiro de prata que lhe deu o padrinho nos anos dela... O açucareiro é dela.
E desceu as escadas, regozijando-se desta boa idéia. A filha não lhe dissera nada do açucareiro. Mas enfim era dela, uma bonita peça de prata, e era bom que lhe recolhesse à casa, também.
Fora, a noite estava abafada, e Neto dirigiu-se à casa devagar, levando o chapéu na mão, calculando as despesas da Ericiera, contente consigo. Os banhos iam-lhe fazer bem. Com cinqüenta mil réis pôr mês, da Ludovina, podia-se estar com conforto: e, como a Ludovina não devia aparecer, nem havia toilletes a fazer, ainda se metia dinheiro no bolso.
Quando depois de subir, aos poucos, os seus cento e cinqüenta degraus, bateu à campainha da porta, foi a Teresa, a filha solteira, que veio abrir, a correr, com os olhos brilhantes, toda excitada. Ninguém lhe disfarçara a verdade. Sabia já que a Ludovina tinha sido apanhada com um homem, que havia um grande desgosto, que o pai fora para Ter uma explicação com o Godofredo.
— Então – perguntou ela, sofregamente. — Lá dentro, lá dentro falaremos.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.