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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Ao meio-dia, um tantã argentino e melancólico ressoava, chamando ao almoço. Com o Fígaro ou as Novidades abertas sobre o prato, eu esperava sempre meia hora pelo meu Príncipe, que entrava numa rajada, consultando o relógio, exalando com a face moída o seu queixume eterno:

-Que maçada! E depois uma noite abominável, enrodilhada em sonhos... Tomei sulfonal, chamei o Grilo

para me esfregar com terebintina... Uma seca!

Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, pôr mais engenhoso, o seduzia; - e, como através do

seu tumulto matinal fumava incontáveis cigarrilhas que o ressequiam, começava pôr se encharcar com um imenso copo de água oxigenada, ou carbonatada, ou gasosa, misturada dum conhaque raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Siracusa. Depois, à pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta; - e reclamava impacientemente o café, um café de Moca, mandado cada mês pôr um feitor do Dedjah, fervido à turca, muito espesso, que ele remexia com um pau de canela! -E tu, Zé Fernandes, que vais tu fazer?

-Eu?

Recostado na cadeira, com delícias, os dedos metidos nas cavas do colete:

-Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!

O meu solícito amigo, remexendo o café com o pau da canela, rebuscava através da numerosa Civilização da cidade uma ocupação que me encantasse. Mas apenas sugeria uma Exposição, ou uma Conferência, ou monumentos, ou passeios, logo encolhia os ombros desconsolado:

-Pôr fim nem vale a pena, é uma seca!

Acendia outra das cigarrilhas russas, onde rebrilhava o seu nome, impresso a ouro na mortalha. Torcendo,

numa pressa nervosa, os fios do bigode, ainda escutava, à porta da Biblioteca, o seu procurador, o nédio e majestoso Laporte. E enfim, seguido dum criado, que sobraçava um maço tremendo de jornais para lhe abastecer o cupé, o Príncipe-Ventura mergulhava na Cidade.

Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o céu de Março nos concedia

caridosamente um pouco de azul aguado, saíamos depois do almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes passeios eram outrora, na nossa idade de Estudantes, um gozo muito querido de Jacinto – porque neles mais intensamente e mais minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha companhia, só lhe davam uma impaciência e uma fadiga que desoladamente destoava do antigo, iluminado êxtase. Com espanto (mesmo com dor, porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar duma crença) descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o denso formigueiro humano sobre o asfalto, e a torrente sombria dos trens sobre o macadame, afligiam meu amigo pela brutalidade da sua pressa, do seu egoísmo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no meu braço, este Jacinto novo começou a lamentar que as ruas, na nossa Civilização, não fossem calçadas de guta-percha! E a guta-percha claramente representava, para meu amigo, a substância discreta que amortece o choque e a rudeza das coisas! Oh maravilha! Jacinto querendo borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funções da Cidade! Depois nem me permitiu pasmar diante daquelas dourejadas e espelhadas lojas que ele outrora considerava como os !preciosos museus do século XIX”...

-Não vale a pena, Zé Fernandes. Há uma imensa pobreza e secura de invenção! Sempre os mesmos florões Luís XV, sempre as mesmas pelúcias... Não vale a pena!

Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo me impressionava o seu horror pela Multidão – pôr certos efeitos da Multidão, só para ele sensíveis, e a que chamava os “sulcos”.

-Tu não sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se instala no olfato, e estraga para todo o dia o ar respirável. É um dito que se surpreende num grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica colado à alma, como um salpico, lembrando a imensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura intolerável pela pretensão, ou pelo mau gosto, ou pela impertinência, ou pela relice, ou pela dureza, e de que se não pode sacudir mais a visão repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, são as pequeninas misérias duma Civilização deliciosa!

(continua...)

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