Por Coelho Neto (1897)
Quando passaram as muralhas, saindo do Campo do Oleiro, o sol brilhava nas pastagens úmidas e passarinhos cruzavam o vôo cantando na alegria do sol.
Maria caminhava d’olhos altos, como enlevada. Inefável sorriso iluminava-lhe o rosto lindo, arrepios nervosos sacudiam-na de instante a instante.
- Lá está Belém! disse José estendendo o cajado na direção dos montes ainda enfaixados em névoa.
Maria empalideceu e, d’olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de Davi, rompeu, de repente, a cantar, sobre uma antiga melodia hebraica, repetindo inspiradamente as palavras que lhe saiam d’alma:
“Espírito Perfeito, ânsia das almas míseras, se és Tu que em mim assistes, bendita seja a carne frágil em que Te encerraste e de onde deves romper, germe da Redenção, em Flor de Misericórdia.
Espírito Perfeito, lume que de mim fizeste a Tua lâmpada, que o Teu clarão espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o amor no coração dos homens.
Espírito Perfeito, fonte de copiosas águas benfazejas, bendita seja a dor que me lançou na vida, benditas sejam as lágrimas que por Ti hei vertido.
Espírito Perfeito, esperança dos desanimados, se eu sou o ramo verde que hei de Te dar, bendita seja a aflição e minh’alma na hora atormentada em que, inocente, me julguei culpada e, pura, vi a suspeita manchar a minha virgindade.
Espírito Perfeito, se És a redenção anunciada, bendigo a Tua vinda, sem orgulho, por me haveres tomado por Teu trâmite e prostro-me ante a Tua Graça e exalto a Tua beneficência.
Espírito Perfeito, Ser do seres, não nado ainda, glória a Ti e à Tua origem celestial. Virgem, dar-te-ei ao mundo. Eu sou como o olhar que não se macula por transmitir ao corpo a visão. Por mim entras no mundo como o sol, e tudo que ele alumia, entra, pelo olhar, no cérebro. Eu sou a pupila que comunicara ao universo a Claridade Magnífica.
Espírito Perfeito, louvado sejas sempre pela Tua virtude e pela Tua excelência. Sabes da carne mortal sem trazeres pecados: passas por ela como uma imagem que se reflete n’água.
Espírito Perfeito, Graça de Israel, Esperança da Gentes, Messias... Meu coração alegra-se sentindo-Te e o meu coração é o cativo que almeja a liberdade.
Eu sou a fraqueza humilde chamada mulher. Sou a escrava que gera o seu libertador, a sombra de onde sabe a luz, o pecado que floresce em perdão...”
José ouviu-a com os olhos rasos d’água. As cotovias cantavam na altura luminosa.
Longe, sob a fulguração do sol, resplandeciam os muros de Belém, entre outeiros.
O CAMPO DE BOOZ
À hora cálida, abafada, em que as folham dormem e as ribeiras murmuram de leve, vagarosas, remansando-se sob as quietas sombras, e toda asa encolhe-se entre os ramos mais densos, e todo réptil encova-se na terra mais úmida, deram os dois num campo de farta seara onde alumiavam foices e moças juntavam gavelas, cantando, enquanto os homens ceifavam assustando as cotovias que tinham os seus ninhos rentes no chão, na raiz do trigal.
Maria, com o manto sobre a cabeça, enlevada naquela messe de ouro e na alegria ruidosa do trabalho, ouvia as vozes que se cruzavam subindo dos trigos altos, onde os seareiros desapareciam, como se fosse o próprio campo que cantasse o louvor do sol.
Ia tão entretida que não viu José adiantar-se, direto a uma palhoça onde um velho jazia, sentado ante um monte de vergas, tecendo um alcofe e cantando. Aligeirou os passos e alcançou o esposo justamente quando ele saudava o ancião. - Dizei-me a quem pertence este campo tão rico e cheio de tanta alegria? - A Obed, segundo deste nome, descendente de Booz, o semeador. - Foi, então, nesta terra que a moabita achou agasalho junto do homem bom, que a amou?
- Sim, foi aqui. Esta é a leira de Efracta, a mais fértil entre as mais abundantes e generosas. Este campo foi o leito nupcial onde se gerou a raça robusta dos reis de Israel.
Aqui nasceu Davi, tronco forte, estirpe augusta de que há de sair a imarcessível(1) flor anunciada, cujo perfume encherá as almas de inefável ventura. Este é o celeiro de Iahve. E vós vindes de onde? - De Nazaré, na Galiléia.
E ides?
A Belém. Urge que lá cheguemos antes do pôr-do-sol.
- Tendes tempo. Sentai-vos um momento, é a hora da refeição. O que tenho dá para repartir convosco. A vossa companheira, esposa ou filha, vem fatigada. Que descanse um instante à sombra, gozando a sesta. Entrareis na cidade com a fresca da tarde.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.