Por Raul Pompéia (1882)
— Esta serve! — disse Pavia, à terceira janela aberta... — Não dá para o jardim... E tem aqui um bom gancho...
Havia de fato no peitoril da janela um gancho de ferro, destinado naturalmente a sustentar um globo de luminária. Não era forte, mas servia para quem quisesse arriscar-se. E os ladrões arriscam-se.
Atando-se ao gancho a corda, era possível escorregar até embaixo da muralha que sustentava o jardim, de sorte que parecia que os ladrões não tinham passado pela porta da sala.
Pavia amarrou uma das pontas da corda e atirou a outra para o parque...
— Bem — disse depois. — Agora eu vou ver se ponho a salvo o cofre... Você deixe cerradas estas três janelas... Feche cuidadosamente a porta, fazendo entrar a lingüeta e prendendo os trincos... E... vá para o seu quarto... Quando levantar-se... levante-se cedo como costuma... quando sair da cama venha logo a esta sala e dê sinal de alarma, faça barulho...
— E depois...
— Eu respondo, pelo resto... Apareça ou não a polícia, asseguro-lhe que não nos sucederá coisa alguma... Neste negócio a polícia há de fechar os olhos... Você verá... E, para tranqüiliza-lo de todo... Eu sou um homem indispensável ao duque... Ele não me fará mal algum, por conseguinte não fará aos meus companheiros de pândega... Fique sossegado...
E Manuel de Pavia, sempre como o seu cofre, saiu para o jardim, deixando Inácio na sala. Quando este ia fechar a porta, o ladrão inclinou-se para ele e disse, à meia-voz:
— Não haverá nada... O homem tem medo de mim.
CAPÍTULO VII
Não tivemos ainda a honra, nem a ocasião de apresentar ao leitor o milionário senhor da quinta de Santo Cristo, o sr.duque de Bragantina.
Agora que vamos encontrá-lo figurando ativamente nas meadas da nossa narrativa, apressamo-nos em fazer a necessária cerimônia.
Atravessemos, embalados maciamente na arfagem sonolenta de uma barca a vapor, as ondulações bonançosas da vasta e serena baía de Paranaguá.
Galguemos a encosta daquelas montanhas alterosas, denteadas, que mordem o firmamento ao longe. Penetremos os cerrados de floresta que aveludam de verde o esqueleto rude, vulcânico, daquelas cordilheiras.
Quando estivermos perto daqueles vapores que vestem-se de ouro a romper do dia e que choram sangue ao fugir da tarde: logo que sentirmos a frescura invernal das serras penetrar-nos o tecido da roupa; quando sentirmos intensamente o perfume da mataria a deliciar-nos o olfato, subindo das grotas no meio de lufadas de nevoeiro como do fundo de enormes turíbulos... nessa ocasião, atravessemos um olhar por entre os arvoredos, que havemos de lobrigar, estendida no meio de um vale, no lugar onde devera existir antes a fita cristalina de um regato, sorrindo aos ventos que a bafejam e às flores que as matas atiram sobre ela, havemos de ver um retiro de prazeres, que se chama uma cidade.
É aí Anatópolis.
Um outro parque de Santo Cristo. Anatópolis é a continuação da quinta do duque de Bragantina. Quando há muito calor no palácio da quinta, o duque de Bragantina passa a baía de Paranaguá e vai buscar refrigério em Anatópolis.
Ao tombar do dia ou pela manhã, um homem aparece, em tempos de verão, a passear pelas arejadas ruas da cidade.
Vai todo de branco, coberto por um amplo chapéu de Chile, fresco como o vestuário. É de uma estatura bonita e excepcional. É velho. As barbas envolvem-lhe o rosto em flocos admiráveis de nevada brancura. O rosto possui ainda uns matizes róseos de mocidade. Tem os olhos pequenos e azuis e usa óculos, uns veneráveis óculos de grossos aros de tartaruga.
Ao redor desse homem, apertam-se muitos amigos, desfazendo-se em cortesias e obséquios.
Se a um destes o leitor perguntar quem é aquele velho, ele dirá espantado:
— Oh, não conhece! É o senhor duque de Bragantina!
É o duque exatamente. Vai caminhando pela rua satisfeito, dirigindo aos que o cercam gracejos e pilhérias, com a voz aflautinada que o caracteriza.
Quando passa por alguma rapariguinha gentil que lhe sorri de uma janela, ele faz-lhe um cumprimento bem desenhado, vai dissertando sobre um assunto qualquer. Ou seja a explicação pela física da propriedade que tem a água de molhar, ou a virtus dormitiva do ópio. Não gosta dos assuntos transcendentais nem de objeções impertinentes; discute para conversar, só para isso. E os amigos o compreendem, não o contrariam.
Por alguns momentos de observação pode-se saber quem é o duque de Bragantina. A roda de amigos que o envolve diz-nos que ele é rico e poderoso; o cumprimento galante à rapariguinha da janela indica-nos que ele é inclinado ao sexo das belas; a sua conversa mostra-nos, pelo objeto, que ele gosta da ciência; pela dissertação, que ele não a cultiva; pelo ar de imposição com que fala, conhece-se que ele não admite obstáculo diante de si.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.