Por Adolfo Caminha (1896)
Ela, porém, via se aproximar o domingo do batizado, cheio de tristeza, maldizendo a nova situação em que a colocara o destino. Positivamente Evaristo não enxergava além das grosseiras necessidades da vida doméstica e não via que uma dona-de-casa no Rio de Janeiro tinha a obrigação de ser, ao mesmo tempo, uma dama elegante, uma senhora distinta, com todos os requisitos para figurar num sarau pomposo ou em qualquer parte aonde houvesse aristocracia e luxo... Como é que ela, vivendo na casa de um homem fino, de uni capitalista, vivendo entre pessoas de "tratamento" em Botafogo, ia-se apresentar aos olhos de D. Branca, aos olhos de D. Sinhá e da mulher do desembargador, aos olhos de uma gente fidalga, na sua humilde toilette de provinciana pobre? Todo o mundo havia de reparar e dizer mal. N0 entanto, com qualquer dinheirinho comprava-se um vestido sério, novo, que ao menos aparentasse... A própria D. Branca lhe dera a perceber que se obtinha, no Rio, muita coisa de alto valor por "preços baratíssimos..."
Oh, aquela festa, domingo, tirava-lhe o sono! Que belo, se caísse uma grande chuva, um aguaceiro medonho, de alagar a cidade inteira, de deixar tudo quanto fosse rua na lama! Quem dera! Ficava transferido o batizado ou ninguém ia à casa de D. Branca, e ela, então, ela, Adelaide, não tinha de se envergonhar, de baixar a cabeça a estranhos.
Mas — nem de propósito! — fazia um tempo claro, azul, luminoso, adorável, como os belos dias de primavera, sem o menor sintoma de variação barométrica, sem nuvens na limpidez cristalina das montanhas.
E a jovem esposa de Evaristo perdia-se em cogitações de toda a ordem, moralmente abatida no seu orgulho, na sua vaidade latente de mulher nova que se vê roubada nos seus direitos à partilha dos gozos. Lembrava-se, por uma natural associação de idéias, de que D. Branca lhe dissera certa vez: "O homem é egoísta e finge não compreender as necessidades da mulher, quando se trata de um vestido novo ou de uma despesa extraordinária. A mulher é obrigada a pedir, a reclamar, a dizer o que precisa, o que lhe falta." Ela pedir a Evaristo? Pedir o quê? Uma toilette para o batizado da pequena? E a roupa que trouxera do Norte, um enxoval quase completo, inda que fora da moda? Que havia de dizer? Que razões apresentar a ele, que sempre a conhecera pobre e refratária à etiqueta e ao luxo? Não, não tinha coragem, nem queria, com uma exigência descabida, molestar o grande coração de Evaristo.
Esperou, resignada, abafando impulsos d'alma.
Em casa de Luís Furtado, naqueles dias mais próximos à festa, era este o assunto obrigado de todas as conversas. D. Branca, principalmente, cuja loquacidade contrastava com a moderação dos inquilinos do segundo andar — não fazia outra coisa senão remexer nas gavetas, polir os móveis, expor os cristais, num açodamento, numa impaciência que lhe dava ares de inseto doido. Queria tudo nos seus lugares, para quando chegasse o domingo. Mandou afinar o piano, lavar a casa de um extremo ao outro, inclusive o quarto dos hóspedes e o escritório de Furtado, no rés-do-chão, substituir as cortinas da sala de visitas; enfim, toda a casa ficou pronta com quatro dias de antecedência para receber o desembargador Lousada e alguns convidados "sem cerimônia". Era pouca gente: o visconde de
Santa Quitéria, o Dr. Condicional, dois amigos quase íntimos do secretário, o Loiola, tesoureiro do Banco, a viúva Tourinho, muito boa senhora, também rica e prendada, o Xavier, do Jornal de Notícias e um ou outro rapaz, de intimidade. Evaristo caiu das nuvens.
— Minha mulher — disse ele à esposa — temos grosso forrobodól Esta gente chama festa sem cerimônia a uma reunião de altos personagens que se divertem aristocraticamente. Com que vestido te vás apresentar?
— Eu?... O melhorzinho é o de casimira cinzenta, não falando no de gorgorão...
— De casimira?.
Evaristo levou a mão ao queixo e fitou os olhos na mulher em atitude contemplativa.
— Que dizes?
— Não sei... — respondeu Adelaide com indiferença.
O bacharel agarrou-se aos bigodes, repuxando-os com a língua, mordendoos, como se empacasse na resolução dalgum problema de direito.
— Aonde nos vimos meter! — dizia, passeando no quarto. — Aonde nos vimos meter!
— É o teu grandioso e espetaculoso Rio de Janeiro!
Evaristo sorriu da ironia, e continuando a passear:
— Há um remédio...
— Qual?
— Fazer um negócio com o Banco...
— Negócio?
— Sim, levantar um pequeno empréstimo.
Noutras quaisquer circunstâncias, Adelaide o aconselharia que não, como já o fizera uma vez na província; mas D. Branca acenava-lhe de longe, no seu espírito, "que não desse uma nota, que não fosse tola."
— Que dizes? — repetiu o bacharel.
— Não sei...
— Pois eu sei: vou falar ao Furtado. Achei a incógnita da equação. Isto de dever, todos devem mais ou menos; a questão é pagar.
Com duzentos mil-réis, sim, com duzentos mil-réis, arranjava-se tudo: uma toilette para Adelaide, uma calça de casimira, e... e charutos.... O vestido, compravase feito, numa modista.
Entraram em acordo, ele e a mulher, sobre as despesas, fizeram cálculos à ponta de lápis, rabiscaram papel até quase meia-noite. Adelaide já agora também pedia a Deus que não chovesse. Era uma ótima ocasião para se apresentar às amigas de D. Branca, ficar conhecendo a viúva Tourinho, a esposa do desembargador e outras senhoras do grand monde fluminense.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.