Por Inglês de Sousa (1891)
Quando se fora adiantando nos estudos e entrara a decifrar a filosofia de Santo Tomás e do Genuense com auxílio de padre Azevedo, quando cursara a teologia moral e dogmática, o seu espírito se perdera, num dédalo de idéias antagônicas e contraditórias. A dúvida, essa filha de Satanás, pairara sobre a sua alma de ignorante, como um gavião prestes a devorá-la. O seu grosseiro materialismo nativo abriu luta com as sutilezas da doutrina. O senso inculto do campônio declarou guerra aos mistérios incompreensíveis e sublimes que os padres lhe ensinavam da cadeira da verdade, muito senhores de si, entre uma pitada de Paulo-Cordeiro e um bocejo sonolento.
Debalde espevitara o juízo, na ânsia de assegurar-se da verdade, de agarrála fisicamente como a um bezerro rebelde. A sua mente era como uma areia seca, em que o vento apaga os desenhos que o vento mesmo traçara. Mal lhe parecia estar senhor duma idéia, já começava a encará-la como duvidosa, e logo tão absurda que só um asno maior da marca a poderia conceber. E se a inteligência algumas vezes passivamente recebia a proposição do mestre e a gravava como verdade incontestável, em outras ocasiões punha-se em atitude belicosa, de lança em riste contra a doutrina da cadeira, que mal se enunciava, logo lhe despertava no cérebro indisciplinado a idéia exatamente contrária.
Fora assim que bastara a padre Azevedo pregar-lhe a doutrina ortodoxa de que o papa é superior ao concílio, ainda geral e ecumênico, para que a opinião galicana em contrário, fortalecida pelo sofístico argumento de Gerson, de Noel Alexandre e de todos os bispos franceses, se arraigasse no seu espírito propenso à rebeldia. E quando mais entusiasmo gritava o professor na sua voz de falsete, enrouquecida pelo abuso do rapé:
— Prima sedes a nemine judicatur!
Antônio mastigava baixinho a quarta proposição do Concílio provincial de 1682, sintetizadora das liberdades da Igreja de França.
Sobre a questão de fazerem os pecadores parte da Igreja, ou deverem dela ser excluídos, debalde sustentara o mestre a doutrina de Santo Agostinho, em contestação à dos donatistas. Não lograra convencer o discípulo, por mais que amontoasse textos das Sagradas Escrituras, e declarasse que a opinião dos donatistas fora adotada por Huss e por Lutero, quanto bastava para inficionar de heresia. A rebeldia nativa do discípulo opunha-lhe à autoridade o concurso dos 296 bispos, combatidos pelo filho de Mônica na conferência de Cartago.
Padre Azevedo, esfregando nervosamente as ventas no lenço de Alcobaça, respondia que na opinião de juiz competente, do papa Murtinho V, tanto valia Agostinho como todos os mais doutores.
—Tantu unus quanti omnes! berrava vitoriosamente o mestre, relanceando os vesgos olhos por sobre a classe convencida cujo silêncio aprovador esmagava o contradicente, que, por fim, entrando na razão, sujeitava-se ao parecer da cadeira.
Assim se passara a sua educação teológica entre a dúvida e a contradição, duas filhas do demônio, infelizmente alimentadas pela bonomia tolerante do professor, que admitia as objeções, contanto que se chamassem simples dúvidas nascidas da pouca cultura. A liberdade de discussão que lhe deixavam fortalecia-lhe a tendência revolucionária do espírito, aguçava-lhe as sutilezas da inteligência e habituava-o a procurar em todas as verdades o ponto fraco para as combater, couraçando-se de sofismas com que a vaidade buscava triunfar na argumentação, ao ponto de já lhe não ser fácil perceber claramente o lado reto e seguro duma controvérsia. E no recôndito da consciência confessava-se incapaz de afirmar qualquer preceito ou de pensar com seriedade e inteireza de ânimo.
Essa dubiedade tormentosa, causando-lhe as cruciantes dores da fraqueza consciente, levara-o a extremos de submissão servil, que lhe lembravam a mãe a adular as amantes do marido no meio de lágrimas da mais profunda tristeza. Aqueles extremos reabilitavam o seminarista aso olhos dos padres-mestres, mas no íntimo apenas cavavam mais fundo o vácuo do ceticismo, pois que era uma submissão toda aparentes, momentânea, embora sincera e de que ele se vingava, a sós consigo, no silêncio do dormitório e das noites mal dormidas, levando o arrojo da sua contradição e a ponta acerada dos seus sofismas à região das mais condenadas heresias.
Conhecera e partilhara todos os erros que contristaram e dividiram a Igreja Católica desde Orígenes até Lutero. À medida das leituras, ia-se embebendo das doutrinas mais extravagantes e dos sofismas mais grosseiros, pronto sempre a passar da verdade para o absurdo e do absurdo para a verdade, parecendo-lhe o mais intrincado tecido de disparates um sistema claro e consentâneo com a razão natural; e o mais simples preceito de moral ou de civilidade afigurava-se-lhe uma regra de convenção que a ignorância dos tempos impusera à boa fé dos pobres de espírito.
Os apetites longamente sopitados e constrangidos sob a atmosfera claustral, causavam-lhe aberrações de sentimento e obscureciam-lhe a razão que, para os enganar, adotara os sistemas mais extraordinários e as doutrinas mais imorais e anti-sociais que a loucura humana jamais concretizou numa seita religiosa.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.