Por Aluísio Azevedo (1880)
— Não, meu amigo, não me é mais possível esquecer-te - volveu a moça, conchegando para si o amante e passando-lhe os braços em volta do pescoço. — O amor que tenho, meu amigo, não entrou neste coração já feito e desenvolvido, não! ele aqui nasceu, fecundado por ti, foi pequenino e hoje está crescido, eduquei-o pouco a pouco como se educa um filho querido, que sai de nossas entranhas; amamentei-o como a minha primeira esperança; alimentei-o depois com a tua dedicação; santifiquei-o ao calor religioso de teus sacrifícios e fielmente robusteci-o ao clarão vivificante do teu talento. Amei-te, porque és nobre, forte e dedicado! Hoje o nosso filho querido, o nosso amor é dono absoluto de mim; o coração, com a franqueza de mãe, habituada a fazer-lhe todos os caprichozinhos, já não reage. E parece-te que eu seria capaz, que poderia, ainda se quisesse, enxotá-lo da casa? Não sabes que depois da recusa de meu pai eu mais e mais te quero? Oh! mas ele consentirá em tudo! meu pai é bom e ainda não te conhece bem; logo que assim aconteça, gostará necessariamente de ti. E muito mais sabendo que eu te amo tanto e tanto!
E dizendo isso, Rosalina cada vez mais estreitava o amante com carinho.
E ele, com os lábios juntos aos dela, sentia caírem-lhe dentro aquelas palavras como beijos incendiados.
Todas as trevas de seu passado dispersaram-se espavoridas como um bando de aves negras ao contato da luz daqueles beijos.
Sentia-se novamente feliz, dessa felicidade, ou talvez, desta vaidade que enche os corações ainda moços e enamorados, quando embevecidos recebem dos lábios da mulher amada a confirmação da própria fortuna. E assim foi que Miguel, possuído do inesperado contentamento, rindo e chorando, murmurou em segredo e desordem junto aos ouvidos de Rosalina:
— Fala! meu amor! Continua a dizer dessas coisas! Enlouqueço de te ouvir dizer assim a nossa felicidade! Dize! Dize que me amas muito e que me amarás sem fim.
E o roçar dos lábios dos amantes desprendeu um beijo, semelhante à chispa, que o atrito do ferro levanta da pedra.
Uma faísca é sempre perigosa: pode fazer explosão.
Súbito, um jato de luz vermelha inundou rápido o grupo abraçado dos dois amantes.
Se Satanás existe, deve ser dessa cor a sua aureola.
Rosalina soltou um grito horrorizada, grito igual ao da cotovia ao sentir a bala do caçador, e caiu sem sentidos nos braços de Miguel, que imóvel, hirto, chumbado à terra, parecia uma estátua de bronze, tendo nos braços uma mulher bela e pálida, de uma beleza e de uma palidez de mármore.
CAPÍTULO XV
Continuava o sopro brando sussurrante da brisa do mar.
Rosalina tinha a cabeça pendente para a terra e os seus cabelos, indiferentes, brincavam ao soprar travesso da brisa com as pedrinhas soltas na ladeira.
O silêncio principiava a coalhar.
A cinco passos de distância, de pé, com uma lanterna furta-luz na mão esquerda, e com a direita sustentando uma machadinha de abordagem, estava do alto Maffei, pálido de raiva, com a boca serrada a salivar biles.
Luzia-lhe o olhar com a mesma vermelhidão da lanterna; os cabelos empastados de suor, caíam-lhe úmidos pela testa. Estava medonho.
Era uma quadro sombrio e lúgubre.
A figura austera do velho, mergulhada na penumbra, contrastava com o grupo iluminado do primeiro plano. A atmosfera começava de se fazer carregada e pouco a pouco escondera a lua. O foco da lanterna aumentava a densidade das sombras, onde os olhos de Maffei brilhavam como os de um gato bravo. Esse olhar tinha as fosforescências da pupila do tigre.
O desgraçado Miguel sentia mais que nunca a influência magnética daqueles olhos que o fitavam da escuridão; afiguravam-se-lhe a própria sombra a espiá-lo.
Nessa ocasião, a lanterna tinha um quê de humana e atrevida: parecia uma cara risonha e irônica e contrair-se no vidro sujo de pó e a deitar para fora a língua comprida e ensangüentada, língua de luz, cuja claridade doía como um insulto.
Quando essa claridade caiu em cheio no rosto de Miguel produziu o efeito de uma bofetada. Estremeceu e corou de vergonha.
Felizmente, voltara-lhe o sangue frio.
O velho, com um gesto imperioso e grosseiro, ordenou-lhe que o acompanhasse; Miguel maquinalmente abaixou a cabeça, enquanto Maffei, sempre calmo, deu-lhe indiferente as costas e pôs-se a subir a ladeira.
Rosalina permanecia sem sentidos nos braços do amante, que, com tranqüila delicadeza, segurou-a pelos joelhos com a mão direita e com a esquerda amparou-lhe a cabeça lânguida, e, como uma mãe faria ao pequenino, deitou-a carinhosamente no colo; depois, segurando-lhe as costas com o braço, fê-la descansar com cuidado a cabeça em um dos seus ombros, e começou a seguir silenciosa e vagarosamente o velho.
A luz da lanterna ia gradualmente amortecendo, à proporção que no céu o negrume se desenvolvia.
No meio do silêncio, destacavam-se os passos cadenciados do velho e do ranger de galhos e folhas secas, que o outono arrojara ao chão.
Um ou outro passarinho, enganado pela claridade da lanterna ao passar Maffei, piava do seu esconderijo, cumprimentando o dia artificial.
Quando a gente sobe uma ladeira, qualquer peso estafa logo e parece avultar extraordinariamente.
Depois de cinqüenta passos, Miguel sentiu-se exausto. À proporção que ia subindo, mais íngreme, mais pedregosa e mais difícil era a ladeira; firmava o pé, e a pedra em que firmava desprendia-se a rolar ruidosamente até a praia; então o equilíbrio e a agilidade substituíam as forças, que aliás lhe minguavam.
Para animar-se apertava de vez em quando o corpo de Rosalina, ao que a desfalecida respondia com um suspiro tranqüilo e duvidoso, como o ressonar de uma criança adormecida.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.