Por Aluísio Azevedo (1895)
E não há mulher que não deseje que seu marido seja um “Bom marido”. No seu indefectível egoísmo, os interesses privados do lar impõem-se antes de tudo. Não admitirá ela nunca que seu marido pertença a qualquer outra coisa ou idéia que não seja o próprio casamento.
Algumas não amam o esposo, mas nem por isso deixam de pesquisar-lhe a vida inteira, até os mais pequeninos atos da existência. Esse vivo e feminil emprenho de perquisição não vem do interesse carinhoso que ele inspira à mulher, mas do gozo de desfrutar um direito, o direito de zelar e governar o que lhe pertence, o que é só dela e de mais ninguém; pois que, na maior parte dos casos, a mulher não faz questão de que o marido seja este ou aquele, desde que o sujeito preencha os já citados requisitos de bom marido.
E o que recebe o pobre do bom marido em troca de tudo o que dá à esposa? Só recebe uma recompensa — a felicidade de ser pai. Só esta resiste: tudo mais que ele, de longe, nas ilusões do desejo, supunha constituir um mundo de venturas, desfaz-se em tédio e obrigações maçantes. A mulher deixa em breve de ser a esposa para ser “A minha companheira — a minha velha — a madama”. Deixam ambos de ser marido e mulher para serem “Feijão com carne-seca”, como eles lá dizem, os imbecis! O lar deixa de ser o ninho da paz e do descanso para ser “a obrigação da casa”. E em obrigação, e obrigação acabrunhadora, transforma-se toda a vida do homem, desde a mesa da comida até à cama, só lhe ficando intacta a consolação de ser pai.
Com a amante sucede precisamente o contrário. O homem a quem ela se entregou impôs-se ao seu coração por uma irresistível fatalidade do amor. Essa ligação não entrava no programa da sua vida, como o casamento entrava no da vida da outra; essa ligação veio como conseqüência inevitável de uma fascinação imprevista. Em vez de investigar se o homem a quem se “deu” tinha as qualidades e requisitos necessários para tomar mulher, o que ela quis saber, só, foi se ele a amava tanto quanto era amado por ela; e, justamente ao inverso do que faz a mulher na ocasião de arranjar marido, em vez de dizer:
“Aceito este ou aquele contanto que dê de si um bom marido”, o que a amante pensou foi o seguinte: “só este me convém e quero, só este me pode servir para amante, ainda mesmo que ele não disponha das necessárias qualidades para ser um bom amante”. E ela assim pensa e faz, porque ama, e como o seu amor visa certo e determinado indivíduo, só esse, tenha ele as qualidades ou defeitos que tiver, poderá ser o seu homem.
E, como, unindo-se a esse homem, ela em vez de subir, apeou-se da sua posição social, todo o seu empenho, depois de unidos, se transforma em desejar vêlo crescer e elevar-se no conceito público, porque, quanto maior for ele, tanto mais desculpável será a queda da mulher que lhe pertence.
Ainda ao contrário do que sucede no casamento, aqui a tranqüilidade e a íntima bem-aventurança do lar são sacrificadas aos interesses exteriores do amante, se este tiver ambições de caráter público, quer como artista, quer como homem de ação. A paz doméstica, os gozos do amor, tudo isso é rapidamente atirado para o lado se a honra ou o interesse abstrato da glória reclamam o sacrifício do homem amado.
Quando, nos grandes momentos decisivos para a vida pública de um homem, tenha este, sem hesitação, de arriscar tudo num lance resoluto, num rasgo de coragem, e, ou galgar de assalto a vitória completa, ou cair vencido para sempre; se ele é casado, a mulher agarra-o com ambas as mãos, grita, chora, enlaça-o nas suas saias e não o deixa sair de junto dela, reclamando egoisticamente que o infeliz é seu marido e que ela não pode consentir que ele se exponha, porque seria expor também a segurança do seu lar e da sua família; e, se o homem não for casado, enquanto a esposa faz aquilo, o que faz a amante?
A amante, esquecendo a sua felicidade privada pelas conveniências públicas do seu amado, e tendo pouco de si mesma que arriscar, porque tudo por ele próprio já arriscou e não temendo cair em posição falsa, porque falsa já é a sua posição, é a primeira a empurrá-lo para o seu posto de honra e a instigar-lhe os brios, gritandolhe que não perca um instante e cumpra resoluto o seu dever, sejam quais forem as conseqüências.
Ele pode morrer! — Embora! Mas é preciso que vá, que se não desonre, porque, se assim acontecer, ela terá perdido de um modo mais triste ainda a sua felicidade de mulher, porque terá perdido a sua ilusão de amor, porque terá perdido moralmente o seu amante.
Que vá! Que vá! Antes morto que desonrado!
E nisto consiste a grande vantagem que leva o concubinato sobre o casamento. Se eu, em vez de uma filha, tivesse um filho, não hesitaria em aconselhar-lhe que preferisse tomar uma concubina a tomar uma esposa.
Mas, na inversão do caso; quer dizer: sob o ponto de vista do interesse da mulher, o amante será preferível ao marido?
Vejamos:
CAPÍTULO VI
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.