Por Aluísio Azevedo (1894)
E Ieiás, uma vez fechado e mais os seus compatriotas dentro do torrão nativo, demarca e traça' com mão segura e taumaturga lucidez de espírito, a linha de conduta para essa nação que já era inteiramente dele, não escapando ao seu encabrestante código das "Cem Leis" nenhuma das classes e sub-classes, nem mesmo as excrescências sociais, como por exemplo o enxurro dos roninos que ficaram reduzidos à triste condição de espiões políticos, porque no entender do Confúcius japonês, o segredo de bem dirigir um Estado consistia principalmente em saber utilizar com vantagem todas as moléculas, boas e más, de que se constitui o complexo organismo de um povo. Eis o que, com o seu pitoresco estilo, diz... (a página do manuscrito perdeu-se!). Aplique cada qual a si próprio este principio e só não será feliz quem não quiser, pois do saber viver nasce o sorriso, e do sorriso nasce a fortuna. A vida é sempre um útil instrumento de felicidade; o caso esta em saber servir-se dele." Depois de disciplinar hierarquicamente a população, fixar em regras os limites dos canteiros sociais, traçando o lugar preciso de cada grupo, de cada família, de cada indivíduo, com a tábua rigorosa dos seus direitos e dos seus deveres, Ieiás penetra com a lei pelo íntimo da vida privada e regula como se deve comer, beber e até sentir. Ao Samurai, entre outras muitas coisas, recomenda ele: "Não consinto que a mulher se envolva no ato mais insignificante da tua vida pública, como por tua parte não intervenhas no seu governo doméstico. Não deve a galinha vir cá fora ao terreiro cantar ao romper d'alva, nem deve o galo meter-se no ninho a chocar os ovos. Esta é a lei."
Firma quais hão de ser daí em diante os recíprocos deveres entre as duas clássicas Nobrezas que encontrou estabelecidas, e quais as novas relações que devem existir entre a Corte micadoal e o Shogunato; conserva as regalias dos Daimos e assegura-lhes o senhorio feudal, exigindo porém que venham todos eles periodicamente a Gotten Yama para testemunhar ao Shogun a sua fidelidade política; faz o elogio e multiplica as honras da classe militar, agora regularmente constituída pelos Samurais, mas impõe que ela se não arme senão à ordem do Shogun e só em caso de guerra por este oficialmente declarada; e finalmente cria uma nobreza à parte, exclusivamente sua, dá-lhe senhorios e direito de levantar castelos; faz enormes concessões de principados territoriais à sua descendência viva e por nascer, e, à semelhança de Yoritomo em Kamakura, estabelece uma nova capital em Yedo, que mais tarde devia chamar-se Tókio.
Quanto ao Imperador, invulnerável símbolo, ligado por mil vínculos morais à própria alma do povo e superior a todas as lutas partidárias, vendo o Tai-Kum que jamais poderá afundá-lo na terra, nem varrê-lo para os lados, toma o expediente de despedi-lo para o céu; quer dizer, enquanto com uma das mãos lhe cerceia até o extremo a autoridade política, chegando a vedarlhe à Corte intervir nos negócios do Estado, com a outra lhe dilata exageradamente o prestígio divino, e faz dele a sumidade metafísica e ultra-espiritual do Governo, transformando-lhe o trono em um altar sem Deus, a submissão e a fidelidade dos seus súditos em um culto religioso e vago, balbuciado apenas por cerimônias convencionalmente piedosas e distraídos votos de fé; transcendentalizando-lhe enfim a supremacia até lhe apagar de todo o último vestígio de realidade e dar com ela em águas de quimera. Nesse trono mágico, já sem vislumbre do cetro nem de coroa, não se assenta um monarca, ergue-se uma sombra divina; desprendida do solo, e cuja fronte se vai perder no infinito por entre nuvens de sonho alucinado; miragem hereditária de um poder supremo que existiu há dois mil anos; símbolo abstrato de uma onipotência que nada pode.
Já nem sequer é o Papa privativo do Japão esse pobre Imperador n,0 108, é um mito, é uma alegoria eponímica, é um fantasma que veio do céu e voltará para lá, sem haver tocado com as plantas na imundície terrena, atravessando a vida amortalhado na sua alva de gorgorão sem mácula, apenas guarnecida ao meio das amplas mangas com as heráldicas crisântemas imperiais; cativo espectro, cujo mesquinho âmbito de ação, o Tai-Kum foi, com as suas garras implacáveis, cada vez mais apertando até que o restringiu aos degraus do santuário, onde brilha já vinte e dois séculos, inalteravelmente, o espelho de Amateras, mãe formosa da ante-humana dinastia do prisioneiro. E agora, aí, de rastros, a única missão dessa alma penada, que ainda não habita o céu e nunca viveu na terra, é orar, suplicando noite e dia aos seus antepassados do empíreo a salvação espiritual desse povo simples e querido dos deuses, que, lá fora, nas estradas cheias de sol, correndo atrás do arroz de cada dia, esfervilha feliz e risonho, orgulhoso de se ver isolado do resto bárbaro do mundo pela mão ciosa e férrea de Tokugawa Ieiás, a quem, de resto o então rei da Inglaterra, Jacques I, chama no alto da sua respeitosa correspondência desse tempo: "Sua Majestade, o Shogun do Japão"
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O Japão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7416 . Acesso em: 24 mar. 2026.