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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Que expiação esta, Santo Deus, que expiação!

- Que diz a carta?

- Horrores! Estava doida... É uma minha, duas dele.

- De teu primo?

Luísa disse "sim", com a cabeça, lentamente.- E ele?

- Não sei! Está em França, nunca me respondeu.

- Pulha! Como tas apanhou, a mulher?

Luísa contou rapidamente a história do sarcófago, e do cofre.

- Mas tu também, Luísa, atirar uma carta dessas! Oh, mulher, isso é medonho!

E Leopoldina pôs-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do roupão escarlate; os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam procurar um meio, um expediente... Murmurava:

- A questão é de dinheiro...

Luísa, prostrada no sofá, repetia:

- A questão é de dinheiro!

Então Leopoldina, parando bruscamente diante dela:

- Eu sei quem te dava o dinheiro!...

- Quem?

- Um homem.

Luísa ergueu-se, espantada:

- Quem?

- O Castro.

- O de óculos?

- O de óculos.

Luísa fez-se muito corada:

- Oh, Leopoldina! - murmurou. E depois de um silêncio, rapidamente.

- Quem to disse?

- Sei-o eu. Disse-o ele ao Mendonça. Sabes que eram unha e carne. Que te dava tudo o que tulhe pedisses! Disse-lho mais de uma vez.

- Que horror! - exclamou Luísa subitamente indignada. - E tu propões me semelhante coisa? - Oseu olhar, sob as sobrancelhas franzidas, dardejava de cólera. Ir com um homem por dinheiro! Tirou o chapéu, violentamente, com as mãos trêmulas; arremessou-o para a jardineira, e com passos rápidos pelo quarto: - Antes fugir, ir para um convento, ser criada, apanhar a lama das ruas!

- Não te exaltes, criatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te emprestasse' o dinheiro,desinteressadamente...

- Acreditas tu?

Leopoldina não respondeu: com a cabeça baixa, fazia girar os anéis nos dedos.

- E quando fosse outra coisa? - exclamou de repente. - Era um conto de réis, eram dois, estavassalva, estavas feliz!

Luísa sacudiu os ombros, indignada daquelas palavras - dos seus próprios pensamentos, talvez!

- É indecente! É horrível! - dizia.

Ficaram caladas.

- Ah! fosse eu!... - disse Leopoldina.

- Que fazias?

- Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro!

- Isso és tu! - exclamou Luísa, arrebatadamente.

Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de pó-de-arroz.

Mas Luísa atirou-lhe os braços ao pescoço:

- Perdoa-me, perdoa-me! Estou doida, não sei o que digo!...

Começaram ambas a chorar, muito nervosas.

Tu zangaste-te! - dizia Leopoldina cortada de soluços. - Mas é pra teu bem. É o que me parece melhor. Se eu pudesse dava-te o dinheiro... Fazia tudo. Acredita!

E abrindo os braços, indicando o seu corpo com um impudor sublime:

- Seiscentos mil réis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinha-o amanhã!

Nós de dedos bateram à porta.

- Quem é?

- Eu - disse uma voz rouca.

- É meu marido. O animal ainda hoje não despegou de casa. Não posso abrir. Logo.

Luísa limpava os olhos, à pressa, punha o chapéu.

- Quando voltas? - perguntou Leopoldina.

- Quando puder, se não escrevo-te.

- Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar...

Luísa agarrou-lhe o braço:

- E disto nem palavra.

- Doida!

Saiu. Foi subindo devagar até ao Largo de São Roque. A porta da Igreja da Misericórdia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho de armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo de entrar. Não sabia para quê; mas parecia-lhe que depois da excitação apaixonada em que vibrara, o fresco silêncio da igreja a acalmaria. E depois sentia-se tão infeliz que se lembrou de Deus! Necessitava alguma coisa de superior, de forte a que se amparar. Foi-se ajoelhar ao pé de um altar, persignou-se, rezou o padre-nosso, depois a salverainha. Mas aquelas orações, que ela recitava em pequena, não a consolavam; sentia que eram sons inertes que não iam mais alto no caminho do céu que a sua mesma respiração; não as compreendia bem, nem se aplicavam ao seu caso; Deus, por elas, nunca poderia saber o que ela pedia, ali, prostrada na aflição. Quereria falar a Deus, abrir-se toda a Ele; mas com que linguagem? Com as palavras triviais, como se falasse a Leopoldina! Iriam as suas confidências tão longe que O alcançassem? Estaria Ele tão perto que a ouvisse? E ficou ajoelhada, os braços moles, as mãos cruzadas no regaço, olhando as velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha rosada e redonda de um Menino Jesus!

(continua...)

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