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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Perdera agora toda a esperança de se libertar! Às vezes ainda lhe vinha, como um relâmpago, a vontade de contar tudo a Sebastião, tudo. Mas quando o via, com o seu olhar honesto, abraçar Jorge, rirem ambos, e irem fumar o seu cachimbo, e ele tão cheio sempre de admiração por ela, parecia-lhe mais fácil sair para a rua, pedir dinheiro ao primeiro homem que encontrasse - que ir a Sebastião, ao íntimo de Jorge, ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: "Escrevi uma carta a um homem, a criada roubou-ma!" Não, antes morrer naquela agonia de todos os dias, e ter ela mesma, de rastos, de lavar as escadas! As vezes refletia, pensava: - "Mas com que conto eu? -" Não sabia. Com o acaso, com a morte de Juliana... E deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que vinha sentindo vagamente, à distância, alguma coisa de indefinido e de tenebroso onde se afundaria!

Por esse tempo Jorge começou a queixar-se que as suas camisas andavam mal-gomadas. A Juliana positivamente "perdia a mão". Um dia mesmo zangou-se; chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada:

- Isto não se pode vestir, está indecente!

Juliana fez-se amarela; cravou em Luísa um olhar chamejante; mas, com os beiços trêmulos, desculpou-se: a goma era má, fora já trocá-la, etc.

Apenas, porém, Jorge saiu, veio como uma rajada ao quarto, fechou a porta e pôs-se a gritar que a senhora sujava um ror de roupa, o senhor um ror de camisas, que se não tivesse alguém que a ajudasse não podia dar aviamento!... Quem queria negras trazia-as do Brasil!

- E não estou para aturar o gênio do seu marido, percebe a senhora? Se quer é arranjar quemme ajude.

Luísa disse simplesmente:

- Eu a ajudarei.

Tinha agora uma resignação muda, sombria, aceitava tudo!

Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa; e Juliana veio dizer que se a senhora passasse, ela engomava. Senão, não!

Estava um dia adorável; Luísa tencionava sair... Pôs um roupão, e, sem uma palavra, foi buscar o ferro.

Joana ficou atônita.

- Então a senhora vai engomar?

- Há uma carga, e a Juliana só não pode aviar tudo, coitada!

Instalou-se no quarto dos engomados - e estava laboriosamente passando a roupa branca de Jorge, quando Juliana apareceu, de chapéu.

- Você vai sair? - exclamou Luísa.

- É o que eu vinha dizer à senhora. Não posso deixar de sair. - E abotoava as luvas pretas.

- Mas as camisas, quem as engoma?

- Eu vou sair - disse a outra secamente.

- Mas, com os diabos, quem engoma as camisas?

- Engome-as a senhora! Olha a sarna!

- Infame! gritou Luísa. Atirou o ferro para o chão, saiu impetuosamente.

Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluços.

Pôs-se logo a tirar o chapéu e as luvas, assustada. Daí a um momento ouviu a cancela da rua bater com força. Veio ao quarto, viu o roupão de Luísa arremessado, a chapeleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se à polícia? Procurar o marido? Com os diabos! Fora estúpida, com o gênio! Arrumou depressa o quarto; foi-se pôr a engomar, com o ouvido à escuta, muito arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impelisse a fazer algum despropósito, quem perdia? Ela, que teria de sair da casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua posição! Safa!

Luísa saíra, como louca. Na Rua da Escola um cupê passava, vazio: atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina. Leopoldina devia ter voltado do Porto; queria vê-la, precisava dela, sem saber para quê... Para desabafar! Pedir-lhe uma idéia, um meio de se vingar! Porque a vontade de se libertar daquela tirania - era agora menor que o desejo de se vingar daquelas humilhações. Vinham-lhe idéias insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um prazer delicioso em a ver torcer-se com vômitos dilacerantes, uivando de agonia, largando a alma!

Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito tempo do puxão da sua mão febril.

A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor:

- É a senhora D. Luísa, minha senhora, é a senhora D. Luísa!

E Leopoldina despenteada, com um roupão escarlate de grande cauda, correu estendendo os braços:

- És tu! Que milagre é este? Eu levantei-me agora! Entra cá para o quarto. Está tudodesarranjado, mas não importa. Mas que é isto, que é isto?

Abriu as janelas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de vinagre de toalete; a Justina tirava à pressa uma bacia de latão, com água ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira tinham ficado da véspera os rolos de cabelos, o colete, uma chávena com um fundo de chá cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o transparente, dizendo:

- Ora graças a Deus que honras esta casa, minha fidalga!...

Mas vendo o rosto perturbado de Luísa, os seus olhos vermelhos de lágrimas:

- Que é? Que tens tu? Que sucedeu?

- Um horror, Leopoldina! - exclamou, apertando as mãos. A outra foi fechar a porta, rapidamente.

- Então?

Mas Luísa chorava sem responder. Leopoldina olhava-a petrificada.

- A Juliana apanhou-me umas cartas! - disse enfim por entre soluços. - Quer seiscentos mil réis! Estou perdida... Tem-me martirizado... Quero que me digas, vê se te lembras... Estou como doida. Sou eu que faço tudo em casa... Morro, não posso! - E as lágrimas redobravam.

- E as tuas jóias?

- Valem duzentos mil réis. E Jorge, que lhe havia eu de dizer?

Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os braços:

- Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, dá vinte libras!...

Luísa murmurava, limpando os olhos:

(continua...)

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