Por Eça de Queirós (1878)
Juliana depois sem pedir licença, começou a sair. Quando voltava tarde para o jantar, não se desculpava.
Um dia Luísa não se conteve; disse-lhe, vendo-a passar no corredor e calçar as luvas pretas:
- Você vai sair?
Ela respondeu, muito atrevidamente:
- É como vê. Fica tudo arrumado, tudo o que é minha obrigação. E abalou, batendo os tacões.
Ora, não lhe faltava mais nada senão estar a constranger-se por causa da Piorrinha!
Joana começava a resmungar: "passa a sua vida na rua a Sra. Juliana e eu é que agüento..."
- Se você estivesse doente, também ninguém lhe ia à mão - acudiu Luísa; aflita, quandopercebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe mesmo vinho e sobremesa.
Havia agora um desperdício na casa. Os róis cresciam. Luísa andava sucumbida. - Como acabaria tudo aquilo?
Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves.
Para sair mais cedo fazia apenas o essencial. Era Luísa que acabava de encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoço, que levava para o sótão roupa suja que ficava pelos cantos...
Um dia Jorge que entrara às quatro horas, viu por acaso a cama por fazer. Luísa apressou-se a dizer que Juliana saíra, mandara-a ela à modista.
Daí a dias, eram seis horas, ainda não tinha voltado para servir ao jantar. Tinha ido à modista..., explicou Luísa.
- Mas se a Juliana é unicamente para ir à modista, então toma-se outra criada para fazer oserviço da casa - disse ele. Àquelas palavras secas Luísa fez-se pálida; duas lágrimas rolaramlhe pela face
Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luísa não se dominou, rompeu choro nervoso, histérico.
- Mas que é, minha filha, que tens? Zangaste-te?...
Ela não podia responder, sufocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de toalete, beijou-a muito.
Só quando o choro acalmou é que ela pôde dizer, com voz soluçada:
- Falaste-me tão secamente, e eu estou tão nervosa...
Ele riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lágrimas - mas ficou inquieto.
Já então lhe notara certas tristezas, abatimentos inexplicáveis, uma irritabilidade nervosa... Que seria?
Para que Jorge não tornasse a surpreender os desleixos, Luísa começou a completar todas as manhãs os arranjos. Juliana percebeu logo; e muito tranqüilamente decidiu-se a deixar-lhe de cada vez mais com que se entreter. Ora não varria, depois não fazia a cama; enfim uma manhã não vazou as águas sujas. Luísa foi espreitar no corredor que Joana não descesse, não a visse, e fez ela mesma os despejos! Quando veio ensaboar as mãos, as lágrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava morrer!... A que tinha chegado!...
D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surpreendera-a a varrer a sala.
- Que eu o faça - exclamou - que tenho só uma criada, mas tu!...
- A Juliana tinha tanto que engomar...
- Ai! Não lhe tires serviço do corpo, que não to agradece. E ainda se ri por cima! Se a pões emmaus costumes!... Que agüente, que agüente!
Luísa sorriu, disse:
- Ora, por uma vez na vida!
A sua tristeza aumentava cada dia.
Refugiava-se então no amor de Jorge como na sua única consolação. A noite trazia-lhe a sua desforra; Juliana a essa hora dormia; não via a sua cara medonha; não a receava; não tinha de a elogiar; não trabalhava por ela! Era ela mesma, era Luísa, como dantes! Estava na sua alcova, com o seu marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir, conversar, ter até apetite! E trazia com efeito às vezes marmelada e pão para o quarto - para fazer uma ceiazinha!
Jorge estranhava-a. "Tu de noite és outra", dizia. Chamava-lhe "ave noturna". Ela ria em saia branca pelo quarto, com os braços nus, o colo nu, o cabelo num rolo; e passarinhava, cantarolava, chalrava - até que Jorge lhe dizia:
- Passa da uma hora, filha!
Despia-se então rapidamente, caía-lhe nos braços.
Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manhã, tudo lhe parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe má. Vestia-se devagar, com repugnância - entrando no seu dia como numa prisão.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.