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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- E concluiu? 

- Felizmente. 

- Perguntei, para saber se devia esperá-lo amanhã. 

- Agora creio que não há de esperar mais por mim, tornou Seixas com um sorriso fugaz. 

Aurélia viu o sorriso, e sentiu a modulação especial da voz. 

Terminado o jantar, quando seguiam ambos pelos meandros recortados na grama, Seixas disse à mulher: 

- Desejo falar-lhe em particular. 

- Vamos sentar-nos então, disse Aurélia indicando o sítio onde habitualmente passavam as tardes. 

- Aqui no jardim, não; prefiro um lugar mais reservado, onde não venham interromper-nos. 

- No meu toucador? 

- Serve. 

- Ou no seu gabinete? 

- No seu toucador; é melhor. 

- Já? perguntou Aurélia simulando indiferença. 

- Não; basta à noite; e se não lhe incomoda, depois do chá, antes de recolher-se. 

- Como quiser! disse Aurélia abrindo as folhas das violetas, à cata de uma flor. 

Seixas tomou o regador da moça, guardado com os outros utensílios de jardinagem em um ninho rústico praticado no muro, e entreteve-se a regar os tabuleiros de margaridas e os vasos de hortências. 

Uma vez na volta do repuxo onde fora buscar água, ao passar perto de Aurélia, a moça perguntou-lhe distraidamente, como se não tivessem interrompido o diálogo:

- É sobre o negócio de que falou-me? 

- Justamente. 

Seixas ficou parado em frente de Aurélia, supondo que ela ia fazer-lhe nova pergunta, enquanto a moça esperava uma explicação, que não queria pedir diretamente. 

Vendo que o marido calava-se, voltou de novo às violetas, e ele continuou em sua ocupação. 

 

IX 

 

Eram dez horas da noite. 

Aurélia, que se havia retirado mais cedo da saleta, trocando com o marido um olhar de inteligência, estava nesse momento em seu toucador, sentada em frente à elegante escrivaninha de araribá cor-de-rosa, com relevos de bronze dourado a fogo. 

A moça trazia nessa ocasião um roupão de cetim verde cerrado à cintura por um cordão de fios de ouro. Era o mesmo da noite do casamento, e que desde então ela nunca mais usara. Por uma espécie de superstição lembrara-se de vesti-lo de novo, nessa hora na qual, a crer em seus pressentimentos, iam decidir-se afinal o seu destino e a sua vida. 

A moça reclinara a fronte sobre a mão direita, cujo braço nu, apoiado na mesa, surgia entre os rofos de cambraia que frocavam a manga do roupão. Estava absorta em uma profunda cisma, da qual a arrancou o tímpano da pêndula soando as horas. 

Ergueu-se então, e tirou da gaveta uma chave; atravessou a câmara nupcial, que estava às escuras, apenas esclarecida pelo reflexo do toucador, e abriu afoitamente aquela porta que havia fechado onze meses antes, num ímpeto de indignação e horror. 

Empurrando a porta com estrépito de modo a ser ouvida no outro aposento, e prendendo o reposteiro para deixar franca a passagem, voltou rapidamente, depois de proferir estas palavras: 

- Quando quiser! 

Fernando ao penetrar nessa câmara nupcial, cheia de sombras e silêncio, esqueceu um momento a pungente recordação que ela devia avivar, e que parecia ter-se apagado com a escuridão. O que ele sentiu foi a fragrância que ali recendia, e que o envolveu como a atmosfera de um céu, do qual ele era o anjo decaído. 

Aurélia esperava o marido, outra vez sentada à escrivaninha. Ela tinha afastado o braço da arandela de modo que a luz do gás, interceptada por um refletor de jaspe representando o carro da aurora, deixava-a imersa em uma penumbra diáfana, que dava à sua beleza tons de maviosa suavidade. 

Seixas sentou-se na cadeira que Aurélia lhe indicara em frente dela, e depois de recolher-se um instante, buscando o modo por que devia começar, entregou-se à inspiração de momento. 

- É a segunda vez que a vejo com este roupão. A primeira foi há cerca de onze meses, não justamente neste lugar, mas perto daqui naquele aposento. 

(continua...)

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