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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Araguaguá é chamado pelos índios o peixe a que os portugueses chamam peixe-serra; os quais têm o couro e feição dos tubarões, mas têm no focinho uma espinha de osso muito dura, com dentes de ambas as bandas mui grandes, uns de meio palmo, e outros de mais, e de menos; segundo o peixe, é a espinha de seis, sete palmos de comprido, os quais se defendem com elas dos tubarões e de outros peixes. Estes se tomam com anzóis de cadeia com arpoeiras compridas, que lhe largam para quebrar a fúria e se vazar do sangue. Este peixe naturalmente é seco, e fazem-no em tassalhos para se secar, que serve a gente do serviço; e tem tamanhos fígados, que se tomam muitos de cujos fígados se tiram trinta e quarenta canadas de azeite, que serve para a candeia e para concertar o breu para os barcos.Uperu é o peixe a que os portugueses chamam tubarão, que há muita soma no mar da Bahia; estes comem gente, se lhe chegam a lanço, e andam sempre à caça do peixe miúdo; aos quais matam com anzóis de cadeia com grandes arpoeiras, como o peixe-serra, nos quais acham pegados os peixes romeiros, como nos do mar largo; cuja carne comem os índios, e em tassalhos secos se gasta com a gente dos engenhos, os quais têm tamanhos fígados que se tira deles vinte e vinte e quatro canadas de azeite; cujos dentes aproveitam os índios, que os engastam nas pontas das flechas; e os que os têm são muito estimados deles.Por tempo de calma aparecem no mar da Bahia toninhas, a que os índios chamam pojoji, dos quais também foge o peixe miúdo para os recôncavos; mas não se faz conta deles para os matarem em nenhum tempo.No mar da Bahia se criam muitas lixas maiores que as da Espanha, que aparecem em certa monção do ano, as quais têm tamanhos fígados que se tira deles quinze e vinte canadas de azeite, as quais andam ao longo da areia, onde há pouco fundo, e tomam-nas com arpéus, o que esperam bem; e secas e escaladas servem para a gente dos engenhos, e para matalotagem da gente que há de passar o mar.

C A P Í T U L O CXXIX
Que trata da propriedade do peixe-boi.


Guaraguá é o peixe a que os portugueses chamam boi, que anda na água salgada e nos rios juntos da água doce, de que eles bebem; e comem de uma erva miúda como milhã que se dá ao longo da água; o qual peixe tem o corpo tamanho como um novilho de dois anos, e tem dois cotos como braços, e neles umas mãos sem dedos; não tem pés, mas tem o rabo à feição de peixe, e à cabeça e focinho como boi; tem o corpo muito maciço, e duas goelas, e uma só tripa; o qual tem os fígados e bofes e a mais forçura como boi, e tudo muito bom; não tem escama, mas pele parda e grossa. A estes peixes se mata com arpões muito grandes, atados a grandes arpoeiras mui fortes, e no cabo delas atado um barril ou outra bóia, porque lhe largam com o arpão a arpoeira, e o arpoador vai numa jangada seguindo o rasto do barril ou bóia, que o peixe leva atrás de si com muita fúria, até que o peixe se vaza todo de sangue, e se vem acima da água morto; o qual levam atado à terra ou ao barco, onde o esfolam como novilho, cuja carne muito gorda é saborosa; e tem o rabo como toucinho sem ter nele nenhuma carne magra, o qual derretem como banha de porco, e se desfaz todo em manteiga, que serve para tudo o para que presta a de porco, e tem muito melhor sabor; a carne deste peixe em fresco cozida com couves sabe a carne de vaca, e salpresa melhor, e adubada parece e tem o sabor de carne de porco; e feita em tassalhos posta de fumo faz-se muito vermelha, parece e tem o sabor, cozida, de carne de porco muito boa; a qual se faz muito vermelha e é feita toda em fêve-ras com sua gordura misturada; e em fresca e salpresa, e de vinha dalhos, assada parece lombo de porco, e faz-lhe vantagem no sabor; as mãos cozidas deste peixe são como as de porco, mas têm mais que comer; o qual tem os dentes como boi, e na cabeça entre os miolos tem uma pedra tamanha como um ovo de pata, feita em três peças, a qual é muito alva e dura como marfim, e tem grandes virtudes contra a dor de pedra; as fêmeas parem uma só criança, e têm o seu sexo como outra alimária; e os machos têm os testículos e vergalho como boi; na pele não têm cabelo nem escama.

C A P Í T U L O CXXX
Que trata dos peixes prezados e grandes.

(continua...)

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