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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Em véspera de Natal, Crispim & Cia. chegou à minha carteira, pousou galhofeiramente o chapéu sobre a página do livro de Caixa que eu enegrecia de cifras, e cruzando os braços, com um riso de lealdade e estima:

- Então com quê; rainha, se o Raposinho fosse rei?... Ora, diga lá o Senhor Raposo. Há ai dentro desse peito amor verdadeiro à mana Jesuina?

Crispim & Cia. admirava a paixão e o ideal. Eu ia já dizer que adorava a senhora D. Jesuína como a uma estrela remota... Mas recordei a voz altiva e pura da Travessa da Palha! Recalquei a mentira sentimental que já me enlanguescia o lábio - e disse corajosamente:

- Amor, amor, não... Mas acho-a um belo mulherão; gosto-lhe muito do dote; e havia de ser um bom marido.

- Dá cá essa mão honrada! - gritou a firma.

Casei. Sou pai. Tenho carruagem, a consideração do meu bairro, a comenda de Cristo. E o Doutor Margaride, que janta comigo todos os domingos de casaca, afirma que o Estado, pela minha ilustração, as minhas consideráveis viagens e o meu patriotismo - me deve o título de Barão do Mosteiro. Porque eu comprei o Mosteiro. O digno magistrado uma tarde, à mesa, anunciou que o horrendo Negrão, desejando arredondar as suas propriedades em Torres, decidira vender o velho solar dos condes de Lindoso.

- Ora, aquelas árvores, Teodorico - lembrou o benemérito homem - deram sombra à senhora sua mamã. Direi mais: as mesmas sombras cobriram seu respeitabilíssimo pai, Teodorico!... Eu por mim, se tivesse a honra de ser um Raposo, não me continha, comprava o Mosteiro, erguia lá um torreão com ameias!

Crispim & Cia. disse, pousando o copo:

- Compra, é cousa de família, fica-te bem.

E, numa véspera de Páscoa, assinei no cartório do Justino, com o procurador do Negrão, a escritura que me tomava enfim, depois de tantas esperanças e de tantos desalentos, o senhor do Mosteiro!

- Que faz agora esse maroto desse Negrão? - indaguei eu do bom Justino, apenas saiu o agente do sórdido sacerdote.

O dileto e fiel amigo deu estalinhos nos dedos. O Negrão pechinchava! Herdara tudo do Padre Casimiro, que lá tinha o seu corpo no alto de São João e a sua alma no seio de Deus. E agora era o íntimo do Padre Pinheiro que não tinha herdeiros, e que ele levara para Torres, "para o curar". O pobre Pinheiro lá andava, mais chupado, empanturrando-se com os tremendos jantares do Negrão, deitando a língua de fora diante de cada espelho. E não durava, coitado! De sorte que o Negrão vinha a reunir (com exceção do que fora para o Senhor dos Passos, que não podia tornar a morrer, esse!) o melhor da fortuna de G. Godinho.

Eu rosnei, pálido:

- Que besta!

- Chame-lhe besta, amiguinho!... Tem carruagem, tem casa em Lisboa, tomou a Adélia por conta...

- Que Adélia?

- Uma de boas carnes, que esteve com o Eleutério... Depois, esteve muito em segredo com um basbaque, um bacharel, não sei quem...

- Sei eu.

- Pois essa! Tem-na por conta o Negrão, com luxo, tapete na escada, cortinas de damasco, tudo... E está mais gordo. Vi-o ontem; vinha de pregar... Pelo menos disse-me que "saía de São Roque esfalfado de dizer amabilidades a um diabo de um santo!" Que o Negrão às vezes é engraçado. E tem bons amigos, lábia, influência em Torres... Ainda o vemos bispo!

Recolhi à minha família, pensativo. Tudo o que eu esperara e amara (até a Adélia!) o possuía agora legitimamente o horrendo Negrão!... Perda pavorosa. E que não proviera da troca dos meus embrulhos, nem dos erros da minha hipocrisia.

Agora, pai, comendador, proprietário, eu tinha uma compreensão mais positiva da vida; e sentia bem que fora esbulhado dos contos de G. Godinho simplesmente por me ter faltado no oratório da Titi - a coragem de afirmar!

Sim! Quando em vez de uma coroa de martírio aparecera, sobre o altar da Titi, uma camisa de pecado - eu deveria ter gritado, com segurança: "Eis aí a relíquia! Quis fazer a surpresa... Não é a coroa de espinhos. E melhor! E a camisa de Santa Maria Madalena!... Deu-ma ela no deserto..."

E logo o provava com esse papel, escrito em letra perfeita:

Ao meu portuguesinho valente, pelo muito que gozamos... Era essa a carta em que a santa me ofertava a sua camisa. Lá brilhavam as suas iniciais - M. M.! Lá destacava essa clara, evidente confissão - "o muito que gozamos"; o muito que eu gozara em mandar à santa as minhas orações para o céu, o muito que a santa gozara no céu em receber as minhas orações!

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