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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Entendo que cabe a este primeiro capítulo dizermos das baleias que entram na Bahia (como do maior peixe do mar dela), a que os índios chamam "pirapuã"; das quais entram na Bahia muitas no mês de maio, que é o primeiro do inverno naquelas partes, onde andam até o fim de dezembro que se vão; e neste tempo de inverno, que reina até o mês de agosto, parem as fêmeas abrigada da terra da Bahia pela tormenta que faz no mar largo, e trazem aqui os filhos, depois que parem, três e quatro meses, que eles têm disposição para seguirem as mães pelo mar largo; e neste tempo tornam as fêmeas a emprenhar, na qual obra fazem grandes estrondos no mar. E enquanto as baleias andam na Bahia, foge o peixe do meio dela para os baixos e recôncavos onde elas não podem andar, as quais às vezes pelo irem seguindo dão em seco, como aconteceu no rio de Pirajá o ano de 1580, que ficaram neste rio duas em seco, macho e fêmea, as quais foi ver quem quis; e eu mandei medir a fêmea, que estava inteira, e tinha do rabo até a cabeça setenta e três palmos de comprido, e dezessete de alto, fora o que tinha metido pela vasa, em que estava assentada; o macho era sem comparação maior, o que se não pôde medir, por a este tempo estar já despido da carne, que lhe tinham levado para azeite; a fêmea tinha a boca tamanha que vi estar um negro metido entre um queixo e outro, cortando com um machado no beiço de baixo com ambas as mãos, sem tocar no beiço de cima; e a borda do beiço era tão grossa como um barril de seis almudes; e o beiço de baixo saía para fora mais que o de cima, tanto que se podia arrumar de cada banda dele um quarto de meação; a qual baleia estava prenhe, e tiraram-lhe de dentro um filho tamanho como um barco de trinta palmos de quilha; e se fez em ambas de duas tanto azeite que fartaram a terra dele dois anos. Quando estas baleias andam na Bahia acompanham-se em bandos de dez, doze juntas, e fazem grande temor aos que navegam por ela em barcos, porque andam urrando, e em saltos, lançando a água mui alta para cima; e já aconteceu por vezes espedaçarem barcos, em que deram com o rabo, e matarem a gente deles.

C A P Í T U L O CXXVI
Que trata do espadarte e de outro peixe não conhecido que deu à costa.


Entram na Bahia, no tempo das baleias, outros peixes muito grandes, a que os índios chamam pirapucu, e os portugueses espadartes, os quais têm grandes brigas com as baleias, e fazem tamanho estrondo quando pelejam, levantando sobre a água tamanho vulto e tanta dela para cima, que parece de longe um navio a vela; o que se vê de três e quatro léguas de espaço, e com esta revolta, em que andam, fazem grande espanto ao outro peixe miúdo; com o que foge para os rios e recôncavos da Bahia.Aconteceu na Bahia, no verão do ano de 1584, onde chamam Tapoã, vir um grande vulto do mar fazendo grande marulho de diante após o peixe miúdo que lhe vinha fugindo para a terra, até dar em seco; e como vinha com muita força, varou em terra pela praia, de onde se não pôde tornar ao mar por vazar a maré e lhe faltar a água para nadar; ao que acudiram os vizinhos daquela comarca a desfazer este peixe, que se desfaz todo, em azeite, como faz a baleia; o qual tinha trinta e sete palmos de comprido, e não tinha escama, mas couro muito grosso e gordo como toucinho, de cor verdoenga; o qual peixe era tão alto e grosso que tolhia a vista do mar, a quem se punha detrás dele; cuja cabeça era grandíssima, e tinha por natureza um só olho no meio da fron-taria do rosto; as espinhas e ossos eram verdoengas; ao qual peixe não soube ninguém o nome, por não haver entre os índios nem portugueses quem soubesse dizer que visse nem ouvisse que o mar lançasse outro peixe como este fora, de que se admiraram muito.

C A P Í T U L O CXXVII
Que trata dos homens marinhos.


Não há dúvida senão que se encontram na Bahia e nos recôncavos dela muitos homens marinhos, a que os índios chamam pela sua língua upupiara, os quais andam pelo rio de água doce pelo tempo do verão, onde fazem muito dano aos índios pescadores e mariscadores que andam em jangada, onde os tomam, e aos que andam pela borda da água, metidos nela; a uns e outros apanham, e metem-nos debaixo da água, onde os afogam; os quais saem à terra com a maré vazia afogados e mordidos na boca, narizes e na sua natura; e dizem outros índios pescadores que viram tomar estes mortos que viram sobre água uma cabeça de homem lançar um braço fora dela e levar o morto; e os que isso viram se recolheram fugindo à terra assombrados, do que ficaram tão atemorizados que não quiseram tornar a pescar daí a muitos dias; o que também aconteceu a alguns negros de Guiné; os quais fantasmas ou homens marinhos mataram por vezes cinco índios meus; e já aconteceu tomar um monstro destes dois índios pescadores de uma jangada e levarem um, e salvar-se outro tão assombrado que esteve para morrer; e alguns morrem disto. E um mestre-de-açúcar do meu engenho afirmou que olhando da janela do engenho que está sobre o rio, e que gritavam umas negras, uma noite, que estavam lavando umas fôrmas de açúcar, viu um vulto maior que um homem à borda da água, mas que se lançou logo nela; ao qual mestre-de-açúcar as negras disseram que aquele fantasma vinha para pegar nelas, e que aquele era o homem marinho, as quais estiveram assombradas muitos dias; e destes acontecimentos acontecem muitos no verão, que no inverno não falta nunca nenhum negro.

C A P Í T U L O CXXVIII
Que trata do peixe-serra, tubarões, toninhas e lixas.

(continua...)

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