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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Ficava ali como no céu, minha senhora!

- E... aonde se haviam de pôr os baús?

- No meu quarto, em cima. E com um risinho: - Os baús não são gente, não sofrem...

Luísa disse um pouco embaraçada:

- Bem, eu verei; eu falarei ao Sr. Jorge.

- Conto com a senhora.

Mas apenas nessa tarde Luísa explicou a Jorge "a ambição da pobre de Cristo", ele deu um salto:

- O quê? Mudar os baús? Está doida!

Luísa então insistiu: era o sonho da pobre criatura desde que viera para casa! Enterneceu-o. Não, ele não imaginava; ninguém imaginava o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava; os ratos passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava roto, chovia dentro; fora lá há dias, e ia tombando para o lado...

- Santo Deus! Mas isso é o que minha avó contava das enxovias de Almeida! Muda-a, muda-adepressa, filha!... Porei os meus ricos baús no sótão.

Quando Juliana soube o favor:

- Ai, minha senhora, é a vida que me dá! Deus lho pague! Que eu não tinha saúde para vivernum cacifo daqueles.

Ultimamente queixava-se mais; andava amarela, trazia os beiços um pouco arroxeados; tinha dias de uma tristeza negra, ou de uma irritabilidade mórbida; os pés nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos cuidados, muitos cuidados!...

Foi por isso que daí a dois dias veio pedir a Luísa, se fazia o favor de ir ao quarto dos baús. E lá, mostrando-lhe o soalho velho e carunchoso:

- Isto não pode ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira senão, não vale a penamudar. Eu se tivesse dinheiro não importunava a senhora, mas...

- Bem, bem, eu arranjarei - disse Luísa com uma voz paciente.

E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manhã em que os esteireiros a pregavam, Jorge veio perguntar atônito a Luísa o que era aquilo, rolos de esteira no corredor?" Ela pôs-se a rir; pousou-lhe as mãos sobre os ombros:

- Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o soalho estava podre. Até aqueria pagar, e que eu lha descontasse nas soldadas. Ora por uma ridicularia... - E com um gesto compassivo: - Também são criaturas de Deus; não são escravas, filho!

- Magnífico! E que não tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudança foi essa, tu que anão podias ver?

- Coitada! - fez Luísa - reconheci que era boa mulher. E como estive tão só, dei-me mais comela. Não tinha com quem falar; fez-me muita companhia. Até quando estive doente...

- Estiveste doente? - exclamou Jorge espantado.

- Oh! Três dias, só - acudiu ela - uma constipação. Pois olha que dia e noite não se tirou de aopé de mim.

Luísa ficou com receio que Jorge falasse na doença, e Juliana desprevenida negasse, por isso, nessa tarde, ao escurecer chamou-a ao quarto:

- Eu disse ao Sr. Jorge que você me tinha feito muito boa companhia na doença... - E o seurosto abrasava-se de vergonha.

Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade:

- Fico entendida, minha senhora! Pode estar sossegada!

Com efeito Jorge, ao outro dia, depois do café, voltou-se para Juliana, e com bondade:

- Parece que você fez boa companhia à Sra. Luísa.

- Fiz o meu dever - exclamou, curvando-se com a mão no peito.

- Bem, bem - fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sair da sala meteu-na mão meia libra.

- Palerma! - rosnou ela.

Foi nessa semana que começou a queixar-se à Luísa, que a roupa e os vestidos, na arca, se lhe amarfanhavam... Estava-se-lhe a estragar tudo! Se ela tivesse dinheiro, não vinha com aqueles pedidos à senhora, mas... Enfim uma manhã declarou terminantemente que precisava uma cômoda.

Luísa sentiu uma raiva acender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos do bordado - Uma meia cômoda?

- Se a senhora quer fazer o favor, então uma cômoda inteira...

- Mas você tem pouca roupa - disse Luísa. Começava a instalar-se na humilhação e járegateava as condescendências.

- Tenho, sim, minha senhora - replicou Juliana -, mas vou agora completar-me!

A cômoda foi comprada em segredo, e introduzida ocultamente. Que dia de felicidade para Juliana! Não se fartava de lhe saborear o cheiro da madeira nova! Passava a mão, com a tremura de uma carícia, sobre o polimento luzidio!... Forrou-lhe as gavetas de papel de seda; e começava a completar-se!

Foram semanas de amargura para Luísa.

Juliana entrava no quarto todas as manhãs, muito cumprimenteira, começava a amimar, e de repente com uma voz lamentosa:

- Ai! Estou tão falta de camisas! Se a senhora me pudesse ajudar...

Luísa ia às suas gavetas cheias, cheirosas, e começava melancolicamente a pôr à parte as peças mais usadas. Adorava a sua roupa branca; tinha tudo às dúzias, com lindas marcas, sachês para perfumar; e aquelas dádivas dilaceravam-se com mutilações! Juliana por fim já pedia com secura, com direito:

(continua...)

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