Por Eça de Queirós (1878)
Era Basílio que fizera entrar nobremente na platéia o seu faéton! Direito na almofada, com o chapéu ao lado, uma rosa na sobrecasaca, continha com a mão negligente a inquietação soberba dos seus cavalos ingleses; e ao seu lado, sentado como um trintanário coberto das suas vestes sacerdotais, vinha o patriarca de Jerusalém! - Mas Jorge arrancara o punhal todo escarlate; as gotas de sangue corriam até a ponta, coalhavam; caíam depois com um som cristalino, punham-se a rolar pelo tablado como continhas de vidro vermelho. Ela deitara-se, expirante, sob o carvalho que se parecia com Sebastião; então, como a terra era dura, a árvore estendeu por baixo dela as suas raízes, macias como coxins de penas; como o sol a mordia, a árvore desdobrou sobre ela as suas ramagens, como os panos de uma tenda; e das folhas deixava-lhe escorrer sobre os lábios gotas de vinho da Madeira! Ela via no entanto com terror o seu sangue sair da ferida, vermelho e forte, correr, alastrar-se, fazendo poças aqui, ribeirinhos tortuosos além. E ouvia a platéia berrar:
- O autor! Fora o autor!
Ernestinho, muito frisado, pálido, apareceu; agradecia soluçando; e, às cortesias, saltava aqui, acolá - para não sujar no sangue da prima Luísa os seus sapatinhos de verniz...
Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente: - Olá, como vai isso? - Parecia-lhe de Jorge. De onde vinha? Do céu? Da platéia? Do corredor? Um ruído forte, como de uma mala que se deixa cair, acordou-a. Sentou-se na cama.
- Bem, deixe aí - disse a voz de Jorge.
Saltou em camisa. Ele entrava. E ficaram enlaçados, num longo abraço, os beiços colados, sem uma palavra. O relógio do quarto dava sete horas.
CAPÍTULO X
Nesse dia pela uma hora Jorge e Luísa acabavam de almoçar, como na véspera da partida dele. Mas agora não pesava a faiscante inclemência da calma; as janelas estavam abertas ao sol amável de outubro; já passavam no ar certas frescuras outonais; havia uma palidez meiga na luz; à tardinha já sabiam bem os paletós; e tons amarelados começavam a envelhecer as verduras.
- Que bom achar-se a gente outra vez no seu ninho! - disse Jorge, estirando-se na voltaire.
Estivera contando a Luísa a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro, e tinha ganho dinheiro! Trazia os elementos de um belo relatório; criara amigos naquela boa gente do Alentejo; estavam acabadas as soalherias, as cavalgadas pelos montados, os quartos de hospedaria; e ali estava enfim na sua casinha. E como na véspera da sua partida, soprava o fumo do cigarro, cofiando com delícias o bigode - porque tinha cortado a barba! Fora a grande admiração de Luísa, quando o viu. Ele explicara, com humilhação e melancolia, que tivera um furúnculo no queixo, com o calor...
- Mas que bem te fica! - tinha ela dito - que bem que te fica!
Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de louça da China, muito antigos, com mandarins bojudos, de túnicas esmaltadas, suspensos majestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em casa de umas velhas miguelistas, em Mértola. Luísa dispunha-os muito decorativamente nas prateleiras guarda-louça; e em bicos de pés, com a larga cauda do seu roupão estendida por trás, a massa loura do cabelo pesado, um pouco desmanchado sobre as costas - parecia a Jorge mais esbelta, mais irresistível, e nunca a sua cinta fina lhe atraíra tanto os braços.
- A última vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo, lembras-te?
- Lembro - disse Luísa sem se voltar, colocando muito delicadamente um prato.
- E é verdade - perguntou Jorge de repente - teu primo? Viste-lo? Veio ver-te?
O prato escorregou, houve um tlintlim de copos.
- Sim, veio - disse Luísa, depois de um silêncio - esteve aí umas vezes. Demorou-se pouco...
Abaixou-se, abriu o gavetão do guarda-louça, esteve a remexer nas colheres de prata; ergueuse enfim, voltou-se com um sorriso, vermelha, sacudindo as mãos:
- Pronto!
E foi sentar-se nos joelhos de Jorge.
- Como te fica bem! - dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, de um modo ardente. Quando seatirara aos seus braços naquela madrugada, sentira como abrir-se-lhe o coração, e um amor repentino revolver-lho deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o servir, de o apertar nos braços até lhe fazer mal, de lhe obedecer com humildade; era uma sensação múltipla, de uma doçura infinita, que a traspassara até às profundidades do seu ser. E passando-lhe um braço pelo pescoço, murmurava com um movimento de uma adulação quase lasciva:
- Estás contente? Sentes-te bom? Dize!
Nunca lhe parecera tão bonito, tão bom; a sua pessoa depois daquela separação dava-lhe as admirações, os enlevos de uma paixão nova.
- É o Sr. Sebastião - veio dizer Juliana toda risonha para Jorge.
Jorge deu um pulo, afastou Luísa bruscamente, atirou-se pelo corredor gritando:
- Aos meus braços! Aos meus braços, celerado!
Daí a dias, uma manhã que Jorge saíra para o ministério, Juliana entrou no quarto de Luísa, e fechando a porta devagarinho, com uma voz muito amável:
- Eu desejava falar à senhora numa coisa.
E começou a dizer - que o seu quarto em cima no sótão era pior que uma enxovia; que não podia lá continuar; o calor, o mau cheiro, os percevejos, a falta de ar, e no inverno a umidade, matavam-na! Enfim, desejava mudar para baixo, quarto dos baús.
O quarto dos baús tinha uma janela nas traseiras; era alto e espaçoso; guardavam-se ali os oleados de Jorge, as suas malas, os paletós velhos, e veneráveis baús do tempo da avó, de couro vermelho com pregos amarelos.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.