Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

A argúcia lhe sorria, e ele próprio, com secreta vaidade, aplaudia a finura do sofisma e o bem lembrado da transação, pensando nos combates em que outrora vencera os silogismos do douto padre Azevedo. A luta íntima havia cessado, ele aproximara-se da rede, abrira-a, contemplando-a com um grande desejo sensual. Sentia-se outro homem, parecia-lhe que estava mais leve, que lhe haviam voado do cérebro umas nuvens que lhe tapavam os olhos da razão. Agora, sentado no fundo da rede, prestes a estender o corpo sobre o seio amoroso do alvo linho lavado, via tudo com a calma e segurança dum homem que não se deixa enganar por escrúpulos vãos. Admirava-se dos terrores infantis que o haviam perseguido, e começava a desconfiar de que não andara até ali o caminho do bom senso, mas um desvio da imaginação enferma.

Felizmente o senso comum do campônio, que as teorias e a disciplina do Seminário não lhe haviam tirado, espancava as dúvidas da mente escaldada pelo terror dum castigo imediato e que nada fazia prever. Adormecer na segurança do bem-estar atual, reservando para mais tarde os cuidados da salvação eterna, era a verdadeira filosofia prática que o amazonense adotava, que a floresta, o rio, toda a natureza amazônica ensinavam numa fresca madrugada. Adiar era ganhar tempo, sem perder coisa alguma; graças à infinita bondade do Criador sempre havia tempo para remir as mais graves culpas, e disso dera exemplo Cristo perdoando à Madalena os seus lúbricos amores.

Também o bom ladrão, apesar de ladrão, na mesma noite em que morrera, fora dormir no paraíso. Para que gastar as forças em sacrifícios sobre-humanos, quando se é jovem e a vida se arrasta lenta e desocupada? Para que recusar a taça dos deleites, como Cristo recusara a de amarguras, se era sempre tempo de pedir o remédio, repudiando sinceramente as alegrias mundanas?

Deitou-se, sentindo em todo o corpo o contato macio do linho, experimentando a sensação do viajante fatigado que toma um grande banho aromático, e nele deixa o cansaço, a poeira da estrada e as preocupações da viagem. Nunca pudera gozar a rede como a estava gozando, e agora, abraçado aos punhos, sentia a consciência limpa, o espírito lúcido, o coração desassombrado e alegre, e no aroma das flores de laranjeira e da brisa da floresta, que lhe entrava pelas juntas mal unidas das portas, com um perfume oriental de nardo, de sândalo e de canela, bebeu uma embriaguez suave que lhe pôs em mal definidas reminiscências o melancólico passado.

— Famoso maçador, o Felisberto, sempre à sua ilharga, deleitando-o com a prosa prolixa e incolor, recheada de latinórios nunca ouvidos! Para onde quer que fosse padre Antônio de Morais, o obsequioso Felisberto ia também, não por desconfiança, que não entrava facilmente naquele cérebro de tapuio, mas por cortesia, talvez por prazer, porque criado à sombra da sotaina, ao perfume das velas de cera ordinária da Matriz de Maués, a vila mundurucua, bebia os ares por coisas e pessoas da Igreja, mostrando-se orgulhoso e satisfeito na companhia dum sacerdote, com o desejo de o ter sempre ao pé de si, de possuí-lo todo para si, no ardor da sua veneração egoística. E não parecia desconfiar, o lorpa, do incêndio que lavrava no coração daquele padre, encontrado de joelhos à beira do Carumã, em missão de catequese e de religião! Por uma aberração inexplicável, nos seus menores atos revelava o Felisberto a intenção de lhe atirar a irmã à cara, como se para o neto do tuxaua a maior ventura e maior glória fosse ter um sobrinho que nascesse da Igreja, como o dava claramente a entender nas graçolas insulsas e pesadas com que mimoseava a irmã na presença do hóspede, cobrindo-os a ambos de vergonha. Era uma coisa inqualificável que enchia de repugnância o hóspede, e lhe dera vontade de se ir embora, sozinho, sem esperar o João Pimenta, e profundamente o desgostara. Mas não tivera ainda tempo de se abrir francamente com a Clarinha, de lhe dizer tudo que sentia, de lhe falar às claras, com o coração nas mãos. Algumas frases trocadas a furto, umas lisonjas medrosas de namorado calouro... e nada mais. O receio de desagradar, o pudor de sacerdote o impediam de aproveitar-se francamente da cumplicidade que as chufas do grosseiro tapuio lhe ofereciam. E como partir assim? Afinal de contas, pensava padre Antônio, ela não tinha culpa do que o irmão fazia.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...100101102103104...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →