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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

- Olha, Crispim, eu nunca vou à missa... Tudo isso são patranhas... Eu não posso acreditar que o corpo de Deus esteja todos os domingos num pedaço de hóstia feita de farinha. Deus não tem corpo, nunca teve.. Tudo isso são idolatrias, são carolices... Digo-te isto rasgadamente.. Podes fazer agora comigo o que quiseres. Paciência!

A firma considerou-me um momento mordendo o beiço:

- Pois olha, Raposo, calha-me essa franqueza!... Eu gosto de gente lisa... O outro velhaco, que estava aí a essa carteira, diante de mim dizia: "Grande homem, o Papa!" E depois ia para os botequins e punha o Santo Padre de rastos... Pois acabou-se! Não tens religião, mas tens cavalheirismo... Em todo o caso, às dez no Central para o almocinho, e à vela depois para a Ribeira!

Assim eu conheci a irmã da firma. Chamava-se D. Jesuína; tinha trinta e dous anos e era zarolha. Mas, desde esse domingo de rio e de campo, a riqueza dos seus cabelos ruivos como os de Eva, o seu peito sólido e suculento, a sua pele cor de maçã madura, o riso são dos seus dentes claros - tornavam-me pensativo, quando à tardinha, com o meu charuto, eu recolhia à Baixa pelo Aterro, olhando os mastros das faluas...

Fora educada nas Salésias; sabia geografia e todos os rios da China; sabia história e todos os reis de França; e chamava-me Teodorico-Coração-de-Leão, por eu ter ido à Palestina. Aos domingos agora eu jantava na Pampulha; D. Jesuína fazia um prato de ovos queimados; e o seu olho vesgo pousava, com incessante agrado, na minha face potente e barbuda de Raposão. Uma tarde ao café, Crispim & Cia. louvou a família real, a sua moderação constitucional, a graça caridosa da rainha. Depois descemos ao jardim; e andando D. Jesuína a regar, e eu ao lado enrolando um cigarro, suspirei e murmurei junto ao seu ombro: "Vossa Excelência, D. Jesuína, é que estava a calhar para rainha, se cá o Raposinho fosse rei!" Ela, corando, deu-me a última rosa do verão.

Em véspera de Natal, Crispim & Cia. chegou à minha carteira, pousou galhofeiramente o chapéu sobre a página do livro de Caixa que eu enegrecia de cifras, e cruzando os braços, com um riso de lealdade e estima:

- Então com quê; rainha, se o Raposinho fosse rei?... Ora, diga lá o Senhor Raposo. Há ai dentro desse peito amor verdadeiro à mana Jesuina?

Crispim & Cia. admirava a paixão e o ideal. Eu ia já dizer que adorava a senhora D. Jesuína como a uma estrela remota... Mas recordei a voz altiva e pura da Travessa da Palha! Recalquei a mentira sentimental que já me enlanguescia o lábio - e disse corajosamente:

- Amor, amor, não... Mas acho-a um belo mulherão; gosto-lhe muito do dote; e havia de ser um bom marido.

- Dá cá essa mão honrada! - gritou a firma.

Casei. Sou pai. Tenho carruagem, a consideração do meu bairro, a comenda de Cristo. E o Doutor Margaride, que janta comigo todos os domingos de casaca, afirma que o Estado, pela minha ilustração, as minhas consideráveis viagens e o meu patriotismo - me deve o título de Barão do Mosteiro. Porque eu comprei o Mosteiro. O digno magistrado uma tarde, à mesa, anunciou que o horrendo Negrão, desejando arredondar as suas propriedades em Torres, decidira vender o velho solar dos condes de Lindoso.

- Ora, aquelas árvores, Teodorico - lembrou o benemérito homem - deram sombra à senhora sua mamã. Direi mais: as mesmas sombras cobriram seu respeitabilíssimo pai, Teodorico!... Eu por mim, se tivesse a honra de ser um Raposo, não me continha, comprava o Mosteiro, erguia lá um torreão com ameias!

Crispim & Cia. disse, pousando o copo:

- Compra, é cousa de família, fica-te bem.

E, numa véspera de Páscoa, assinei no cartório do Justino, com o procurador do Negrão, a escritura que me tomava enfim, depois de tantas esperanças e de tantos desalentos, o senhor do Mosteiro!

- Que faz agora esse maroto desse Negrão? - indaguei eu do bom Justino, apenas saiu o agente do sórdido sacerdote.

O dileto e fiel amigo deu estalinhos nos dedos. O Negrão pechinchava! Herdara tudo do Padre Casimiro, que lá tinha o seu corpo no alto de São João e a sua alma no seio de Deus. E agora era o íntimo do Padre Pinheiro que não tinha herdeiros, e que ele levara para Torres, "para o curar". O pobre Pinheiro lá andava, mais chupado, empanturrando-se com os tremendos jantares do Negrão, deitando a língua de fora diante de cada espelho. E não durava, coitado! De sorte que o Negrão vinha a reunir (com exceção do que fora para o Senhor dos Passos, que não podia tornar a morrer, esse!) o melhor da fortuna de G. Godinho.

Eu rosnei, pálido:

- Que besta!

- Chame-lhe besta, amiguinho!... Tem carruagem, tem casa em Lisboa, tomou a Adélia por conta...

- Que Adélia?

- Uma de boas carnes, que esteve com o Eleutério... Depois, esteve muito em segredo com um basbaque, um bacharel, não sei quem...

- Sei eu.

(continua...)

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