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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

A rapariga adormeceu, pensou Luísa. Saltou da cama, subiu descalça à cozinha. Joana, estirada para cima da mesa, ressonava ao pé do candeeiro de petróleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fê-la pôr de pé, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; e sentiu daí a pouco, no corredor, a voz de Juliana dizer com satisfação:

- Já está tudo acomodado, hem? Pois eu estive no teatro. Muito bonito! Do melhor, Sra. Joana, do melhor!

Luísa adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto agitou-a. - Estava num teatro imenso, dourado como uma igreja. Era uma gala: jóias faiscavam sobre seios mimosos, condecorações reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, um rei triste e moço, imóvel numa atitude rígida e hierática, sustentava na mão a esfera armilar, e o seu manto de veludo escuro, constelado de pedrarias como um firmamento, espalhava-se em redor em pregas de escultura, fazendo tropeçar a multidão dos cortesãos vestidos como valetes de paus.

Ela estava no palco; era atriz; debutava no drama de Ernestinho; e toda nervosa via diante de si na vasta platéia sussurrante, fileiras de olhos negros e acesos, cravados nela com furor; no meio a calva do Conselheiro, de uma redondeza nevada e nobre, sobressaia, rodeada como uma flor de um vôo amoroso de abelhas. No palco oscilava a vasta decoração de uma floresta; ela notava sobretudo, à esquerda, um carvalho secular, de uma arrogância heróica -cujo tronco tinha vaga configuração de uma fisionomia, e se parecia com Sebastião.

Mas o contra-regra bateu as palmas; era esguio, parecia-se com D. Quixote, trazia óculos redondos com aros de lata; brandia o Jornal do Comércio torcido em saca-rolhas, e gania: "Salta a cenazinha de amor! Salta-se essa maravilha!" Então a orquestra, onde os olhos dos músicos reluziam como granadas e as suas cabeleiras se eriçavam como montões de estopa, tocou com uma lentidão melancólica o fado de Leopoldina; e uma voz áspera e canalha cantava em falsete:

Vejo-as nas nuvens da tarde,

Nas ondas do mar sem fim, E por mais longe que esteja

Sinto-o sempre ao pé de mim.

Luísa achava-se nos braços de Basílio que a enlaçavam, a queimavam; toda desfalecida, sentia-se perder, fundir-se num elemento quente como o sol e doce como o mel; gozava prodigiosamente; mas, por entre os seus soluços, sentia-se envergonhada, porque Basílio repetia no palco, sem pudor, os delírios libertinos do Paraíso! Como consentia ela?

O teatro, numa aclamação imensa bradava: "Bravo! Bis! Bis!" Lenços aos milhares esvoaçavam como borboletas brancas num campo de trevo; os braços nus das mulheres lançavam com um gesto ondeado ramos de violetas dobradas; o rei erguera-se espectralmente, e, triste, arremessou como um buquê a sua esfera armilar; e o Conselheiro logo, num frenesi, para seguir os exemplos de Sua Majestade, desaparafusando rapidamente a calva, atirou-lha, com um berro de dor e de glória! O contra-regra gania: - "Agradeçam! Agradeçam!" Ela curvava-se: os seus cabelos de Madalena rojavam pelo tablado; e Basílio, a seu lado, seguia com olhos vivos os charutos que lhe atiravam, apanhando-os com a graça de um toureiro e a destreza de um clown!

Subitamente, porém, todo o teatro teve um "ah!" de espanto. Fez-se um silêncio ansioso e trágico; e todos os olhos, milhares de olhos atônitos se fitavam nó pano de fundo, onde um caramanchão arqueava a sua estrutura toda estrelada de rosinhas brancas. Ela voltou-se também como magnetizada, e viu Jorge, Jorge que se adiantava, vestido de luto, de luvas pretas, com um punhal na mão; e a lâmina reluzia - menos que os olhos dele! Aproximou-se da rampa e curvando-se, disse com uma voz graciosa:

- Real Majestade, senhor infante, senhor governador civil, minhas senhoras, e meus senhores agora é comigo! Reparem neste trabalhinho!

Caminhou então para ela com passos marmóreos que faziam oscilar o tablado; agarrou-lhe os cabelos, como um molho de erva que se quer arrancar; Curvou-lhe a cabeça para trás; ergueu de um modo clássico o punhal; fez a pontaria ao seio esquerdo; e balançando o corpo, piscando o olho, cravou-lhe o ferro!

- Muito bonito! - disse uma voz. - Rico trabalho!

(continua...)

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