Por Eça de Queirós (1887)
- Oh meu Senhor Jesus, Deus e filho de Deus, que te encarnaste e padeceste por nós...
Mas emudeci... Aquela inefável voz ressoava ainda em minha alma, mostrando-me a inutilidade da hipocrisia. Consultei a minha consciência, que reentrara dentro de mim - e bem certo de não acreditar que Jesus fosse filho de Deus e de uma mulher casada de Galiléia (como Hércules era filho de Júpiter e de uma mulher casada da Argólida) - cuspi dos meus lábios, tornados para sempre verdadeiros, o resto inútil da oração.
Ao outro dia, casualmente, entrei no jardim de São Pedro de Alcântara - sítio que não pisara desde os meus anos de latim. E mal dera alguns passos, entre os canteiros, encontrei o meu antigo Crispim, filho de Teles Crispim & Cia., com fábrica de fiação à Pampulha - camarada que não avistara desde o meu grau de bacharel. Era este o louro Crispim, que outrora no colégio dos Isidoros me dava beijos vorazes no corredor, e me escrevia à noite bilhetinhos prometendo-me caixas com penas de aço. Crispim velho morrera; Teles, rico e obeso, passara a Visconde de São Teles; e este meu Crispim agora era a firma.
Trocado um ruidoso abraço, Crispim & Cia. notou pensativamente que eu estava "muitíssimo feio". Depois invejou a minha jornada à Terra Santa (que ele soubera pelo Jornal das Novidades) e aludiu, com amigável regozijo, à "grossa maquia que me devia ter deixado a senhora D. Patrocínio das Neves..."
Amargamente mostrei-lhe as minhas botas cambadas. Paramos num banco, junto de uma trepadeira de rosas; e aí, no silêncio e no perfume, narrei a camisa funesta da Mary, a relíquia no seu embrulho, o desastre no oratório, o óculo, o meu quarto miserável na Travessa da Palha...
- De modo, Crispinzinho da minha alma, que aqui me encontro sem pão!
Crispim & Cia., impressionado, torcendo os bigodes louros, murmurou que em Portugal, graças à Carta e à Religião, todo o mundo tinha uma fatia de pão; o que a alguns faltava era o queijo.
- Ora o queijo dou-to eu, meu velho! - ajuntou alegremente a firma, atirando-me uma palmada ao joelho. - Um dos empregados do escritório lá na Pampulha começou a fazer versos, a meter-se com atrizes... E muito republicano, achincalhando as cousas santas... Enfim, um horror, desembaracei-me dele! Ora, tu tinhas boa letra. Uma conta de somar sempre saberás fazer... lá está a carteira do homem, vai lá, são vinte e cinco mil-réis; sempre é o queijo!...
Com duas lágrimas a tremerem-me nas pestanas abracei a firma. Crispim & Cia. murmurou outra vez, com uma careta de quem sente um gosto azedo:
- Irra! Que estás muitíssimo feio!
Comecei então a servir com desvelo a fábrica de fiação à Pampulha; e todos os dias à carteira, com mangas de lustrina, copiava cartas na minha letra de belas curvas e alinhava algarismos num vasto livro de Caixa... A firma ensinara-me a "regra de três", e outras habilidades. E, como de sementes trazidas por um vento casual a um torrão desaproveitado, rompem inesperadamente plantas úteis que prosperam - das lições da firma brotaram, na minha inculta natureza de bacharel em leis, aptidões consideráveis para o negócio da fiação. Já a firma dizia, compenetrada, na assembléia do Carmo:
- Lá o meu Raposo, apesar de Coimbra e dos compêndios que lhe meteram no caco, tem dedo para as cousas sérias!
Ora, num sábado de agosto, à tarde, quando eu ia fechar o livro de Caixa, Crispim & Cia. parou diante da minha carteira, risonho e acendendo o charuto:
- Ouve lá, ó Raposão, tu a que missa costumas ir?
Silenciosamente, tirei a minha manga de lustrina.
- Eu pergunto isto - ajuntou logo a firma - porque amanhã vou com minha irmã à Outra Banda, a uma quinta nossa, a Ribeira. Ora, se tu não estás muito apegado a outra missa, venhas à de Santos, às nove; íamos almoçar ao Hotel Tentral, e embarcávamos de lá para Cacilhas. Estou com vontade que conheças minha irmã!...
Crispim & Cia. era um cavalheiro religioso que considerava a religião indispensável à sua saúde, à sua prosperidade comercial, e à boa ordem do país. Visitava com sinceridade o Senhor dos Passos da Graça, e pertencia à Irmandade de São José. O empregado, cuja carteira eu ocupava, tornara-se-lhe sobretudo intolerável por escrever no Futuro, gazeta republicana, folhetins louvando Renan e ultrajando a eucaristia. Eu ia dizer a Crispim & Cia. que estava tão apegado à missa da Conceição-Nova, que outra não me podia saber bem... Mas lembrei a voz austera e salutar da Travessa da Palha! Recalquei a mentira beata que já me sujava os lábios - e disse, muito pálido e muito firme:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.