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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Sim, D. Felicidade, repetem-se lá fora com freqüência essas tragédias domésticas. Odesenfreamento das paixões é maior. Mas entre nós, digamo-lo com orgulho, o lar é muito respeitado. Assim eu, por exemplo, em todas as minhas relações em Lisboa, que são numerosas, graças a Deus, não conheço senão esposas modelos. - E com um sorriso cortesão: - De que é decerto a flor a dona da casa.

D. Felicidade revirou os olhos para Luísa que estava encostada à cadeira dela, e batendo-lhe no braço:

- Isto é uma jóia! - disse com amor.

- E de resto - acudiu o Conselheiro - o nosso Jorge merece-o. Porque, como diz o poeta:

Seu coração é nobre, e a fronte altiva Revela-lhe da alma a pura essência.

Aquela conversação impacientava Luísa. Ia sentar-se ao piano, quando D. Felicidade exclamou: - Dize cá, então não se toma hoje chá nesta casa?

Luísa foi outra vez à cozinha. Disse a Joana que viesse ela mesma com o chá. - E daí a pouco Joana, de avental branco, vermelha, muito atarantada, entrou com o tabuleiro.

- E a Juliana? - perguntou logo D. Felicidade.

- Saiu, coitada - explicou, Luísa -, tem andado doente...

- E anda-te então por fora até estas horas?... Boa! Até desacredita uma casa...

O Conselheiro também achava imprudente:

- Porque enfim as tentações são grandes numa capital, minha senhora!

Julião exclamou, rindo:

- Não, se aquela é tentada, descreio para sempre e totalmente, dos meus contemporâneos.

- Oh, Sr. Zuzarte! - acudiu o Conselheiro, quase severamente - referia-me a outras tentações: entrar, por exemplo, numa loja de bebidas, apetecer-lhe ir ao circo e desleixar os seus deveres...

Mas D. Felicidade não podia sofrer a Juliana: achava-lhe cara de Judas, tinha ar de ser capaz de tudo...

Luísa defendeu-a; era muito serviçal, muito boa engomadeira, muito honesta...

- E anda-te pela rua até às onze da noite!... Credo! Fosse comigo!

- E creio - observou o Conselheiro - que tem uma doença mortal. Não é verdade, Sr. Zuzarte?

- Mortal. Um aneurisma - respondeu Julião, sem levantar os olhos.

- Ainda para mais! - exclamou D. Felicidade. E abaixando a voz: - Tu o que deves fazer édescartar-te dela! Uma criada com uma doença dessas! Que até lhe pode arrebentar a vir dar um copo de água à gente. Cruzes!

O Conselheiro apoiava:

- E às vezes, que embaraços com a autoridade!

Julião fechou o Dante, e disse:

- Eu, tem-me esquecido de avisar o Jorge; mas um dia a criatura cai-lhes redonda no chão. - Esorveu um gole de chá.

Luísa estava aflita. Parecia-lhe que uma nova complicação se formava para a torturar... Pôs-se a dizer que era tão difícil arranjar criadas...

Lá isso era, concordaram.

Falaram de criados, das suas exigências. Estavam cada vez mais atrevidos! E em se lhes dando confiança! E que imoralidade!...

- Muitas vezes é culpa das amas - disse D. Felicidade. - Fazem das criadas confidentes, e isto,em elas apanhando um segredo, tornam-se as donas da casa...

As mãos trêmulas de Luísa faziam-lhe tilintar a chávena. Disse, com uma vota afetadamente risonha:

- E o Conselheiro, que tal de criados?

Acácio tossiu:

- Bem. Tenho uma pessoa respeitável, com bom paladar, muito escrupulosa em contas...

- E que não é feia - acudiu Julião. - Assim me pareceu uma vez que fui à Rua do Ferregial...

Uma vermelhidão espalhara-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade fitava-o ansiosamente, com a pupila chamejante. Acácio, então, disse com severidade:

- Nunca reparo para a fisionomia dos subalternos, Sr. Zuzarte.

Julião ergueu-se e enterrando as mãos nos bolsos, jovialmente:

- Foi um grande erro abolir a escravatura!...

- E o princípio da liberdade? - acudiu logo o Conselheiro. - E o Princípio da liberdade? Que ospretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a liberdade é um bem maior.

Alargou-se então em considerações: fulminou os horrores do tráfico, lançou suspeitas sobre a filantropia dos ingleses, foi severo com os plantadores da Nova Orleans, contou o caso da Charles et Georges: dirigia-se exclusivamente a Julião, que fumava, cabisbaixo.

D. Felicidade fora-se sentar ao pé de Luísa e muito inquieta, falando-lhe ao ouvido:

- Tu conheces a criada do Conselheiro?

- Não.

- Será bonita?

Luísa encolheu os ombros.

- Não sei que me diz o coração, Luísa! Estou a abafar!

E enquanto Acácio, de pé, perorava para Julião, D. Felicidade ia murmurando a Luísa as queixas da sua paixão.

Que alívio para Luísa quando eles saíram! O que ela sofrera, lá por dentro, toda aquela noite! Que maçadores, que idiotas! - E a outra sem vir! Oh, que vida a sua!

Foi à cozinha dizer a Joana:

- Espere pela Juliana, tenha paciência. Que ela não pode tardar; aquilo a mulher achou-se pior!

Mas já passava de meia-noite, já Luísa estava deitada, quando a campainha tocou de leve; depois mais forte; enfim, com impaciência.

(continua...)

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