Por Visconde de Taunay (1871)
a esperança de encontrar o inimigo, que se não realizaria, e o imprevisto das mais comoventes cenas familiares.
Anunciou-nos uma mulher, vinda de Nioac, o encontro, à margem de um rio próximo, de um grupo de cavaleiros, falando o espanhol. Depois de lhe fazerem algumas perguntas, haviam-na deixado passar tranqüilamente.
Deu-se logo o alarma em toda a frente e à retaguarda, mas tivemos logo a agradável surpresa do regresso do nosso destacamento trazendo dez cavaleiros. Eram brasileiros, eram irmãos! Pertenciam a famílias estimadas e bem conhecidas de fazendeiros das vizinhanças de Nioac: Barbosas, Ferreiras, Lopes, e haviam conseguido escapar ao inimigo inexorável. Com a rapidez do raio circula a notícia de sua aparição por todo o acampamento, e até em Nioac. Para os ver acodem homens e mulheres, possuídos como que de embriaguez; e a maioria até a chorar. Patrícios nossos! Rodeados, carregados, acham-se de repente em presença do comandante que os interroga.
Contam que, levados prisioneiros para o território paraguaio, eles e as famílias, haviam, ao se retirar o inimigo, sido dispersos por diversas localidades, principalmente em Vila Horcheta, a sete léguas de Concepción
Ali lhes haviam dado terras de cultura sob a condição de pagarem aos coletores o quinto da colheita. Nunca os incomodaram muito até então, mas sabendo, ultimamente, que o ditador Lopez, já falto de gente para o exército, projetara recrutar todos os estrangeiros, e até mesmo os prisioneiros, e que, ao mesmo tempo, se aproximava uma coluna brasileira, tudo tinham arriscado para reunir-se aos patrícios, escapando ao perigo de ter de os combater. As próprias famílias os haviam acoroçoado a assim proceder.
A 25 de março, exatamente no dia dos nossos primeiros reconhecimentos diante da colônia, conseguiram apossar-se de bons cavalos paraguaios, e, como se não iludissem acerca do destino que os aguardava caso fossem novamente capturados, tinham se arriscado a caminhar à noite, e de mata em mata, fazendo contínuos rodeios, em direção à fronteira. Atingindo-a felizmente, atravessaram o Apa e depois, deixando à direita a estrada da colônia, subiram ao norte, em direção à estancia do Jardim, de onde desceram ao nosso encontro.
A um deles, o filho do guia Lopes, chamou o Coronel à sua barraca e a sós. Era moço simpático, cuja inteligência e discrição pareciam provir da herança paterna. Versou a conversa, naturalmente, sobre as informações que ele e o cunhado, Barbosa, podiam dar relativamente à situação do Paraguai, à sua força apreciável, meios de resistência, e sobretudo quanto à fronteira vizinha.
Responderam os refugiados que as fortificações do Apa não passavam de simples estacadas de madeira comum, guarnecidas, em Bela Vista, por uma centena de homens, sob o comando do major Martim Urbieta. Estavam os outros fortes em piores condições defensivas; mas o governo paraguaio, à vista dos avisos recebidos, comprometera-se a providenciar dentro em pouco e a enviar reforços, determinando que até a chegada destes, se fizesse uma retirada ante a investida brasileira, destruindo-se tudo o que não fosse possível carregar. Acrescentaram que, no interior do Paraguai, era geral o desânimo; dia a dia menos se acreditava num feliz desfecho da guerra. Entretanto a resolução da defesa, a todo o transe, não parecia esmorecida. Quanto ao respeito pelo presidente, El supremo, cujo nome todos pronunciavam descobrindo-se, era sempre o mesmo.
Apenas pelo acampamento se espalharam tais notícias, só houve um grito: Ao Apa! Ao Apa! Atingiu o entusiasmo ao auge, deixando-se os mais prudentes arrastar pela excitação apaixonada dos grupos que de todos os lados se formavam.
Anunciou-se neste momento a volta do 17.° batalhão que acompanhara o velho Lopes. Era geral o desejo de assistir ao primeiro encontro do pai e do primogênito que lhe voltava aos braços.
Passando pelos postos avançados soubera o nosso guia da grande notícia.
Vinha pálido, lacrimejante, em direção ao filho que, respeitosamente, o esperava, descoberto. Não descavalgou; estendeu a destra trêmula ao filho, que a beijou; depois o velho guia deu-lhe a bênção e passou sem proferir palavra.
Foi uma cena patriarcal, e como seja o coração humano sempre sensível aos grandes lances, atônitos, olhávamos uns para os outros, como a indagar se não seria fraqueza entre soldados nem sempre poder conter as lágrimas.
Que emoção devia sentir o velho vendo o filho escapo ao inimigo! E quanta dor, ao pensar que os outros membros da família, ainda cativos, haviam perdido o mais valente defensor! Quando em tal lhe falamos tomou longa pitada e disse: "Deus tudo faz. Deus assim o quis. Fui outrora feliz, tive casa e família. Hoje durmo ao relento; estou só, e como do que a caridade dá".
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.