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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Tendo agora a prova de que ela tomará direção oposta, cruel suspeita atravessou-lhe, sem o menor fundamento, o espirito, senão o coração, que sobressaltado transbordava inquietações e duvidas.

Sem olhar para seu estado de convalescença, Francisco, que viera da casa até ali abrigado da chuva pelas folhagens das laranjeiras e dos cajueiros novos do sitio, não hesitou mais um só momento e meteu-se pela trilha, que se lhe mostrava, agora mais do que nunca, em forma de serpente, pela planície afora. Não era grande a distancia que separava a lagoa da parte roçada; por isso, dai a pouco se achou ele por traz da renque de arvores que circulava a lagoa e pôde ter esta debaixo dos olhos, sem deixar a quem quer que fosse possibilidade para vê-lo.

Neste ponto parou Francisco, e poz-se a examinar com a vista de um lado para outro todo o espaço livre até aonde podia chegar a sua inspeção.

Ninguém estava ali. Sobre a lagoa a chuva fina caia em forma de fumo ou de névoa espessa. Os sapos coaxavam pela beira d’água, e os jaçanãs soltavam de dentro das moitas aquáticas suas risadinhas de som vibrante e agudo; tudo o mais era imobilidade e silencio.

Não tendo mais para onde ir, Francisco em cuja imaginação exaltada pela fraqueza física e pelos súbitos temores, se desenhavam cenas desesperadoras, não pôde acabar consigo que não chamasse novamente pela mulher.

A voz desprendeu-se-lhe irresistivelmente da garganta, e o som das palavras – Marcelina? Marcelina? Repercutiu pela vasta solidão.

Imediatamente a seus olhos se mostrou uma visão cruel.

Acima dos juncos, que formavam vastos partidos dentro da lagoa, apareceu-lhe uma cabeça coberta com um chapéu de palha. Um homem estava ali e Marcelina não podia achar-se longe. Talvez já estivesse de volta.

Francisco sobresteve um momento imóvel, como estatua; mas notando que o madrugador tão depressa levantara a cabeça, como se abaixará e desaparecera no meio do juncal, mergulhou por entre as folhagens que o ocultavam, e saiu da outra banda no animo de ir por dentro da água até ao ponto onde se sumira o desconhecido. Quando ia a atirar-se na água, a cabeça reapareceu a seus olhos, e uma voz, reboando por cima das aningas e dos juncos, foi levar-lhe aos ouvidos estas palavras, em grau de grito e em tom de repreensão: - Que vem cá fazer, Francisco? Você quer morrer? Era a voz de Marcelina.

Tanto bastou para que ele não avançasse mais um só passo. Fixando a vista com mais serenidade, reconheceu no desconhecido sua mulher.

- E você que está fazendo ai metida, com esse tempo todo? Saia dai, que nem sabe os sustos que me causou com sua ausência.

- Anda você sempre assustado, Francisco! Susto de que? Parece menino.

- Saia já, que eu não posso apanhar chuva.

Agora já não pôde apanhar chuva. Há, instantinhos podia até meter-se na água da lagoa. Parece menino este meu marido. Já lá vou.

Momentos depois, Marcelina achava-se na margem, a saia a tiracolo, o chapéu de palha na cabeça, os pés descalços, a perna de fora, sobraçando um alentado feixe de juncos.

- Então acha que só devo trabalhar nos cestos e na limpa dos abacaxis? perguntou ela ao marido, logo que se achou em terra firme. Vim cortar estes juncos para fazer esteiras de cangalha. Estão dando muito em Goiana, segundo me disse ontem o compadre Victorino, que até me encomendou umas de que precisa.

Livre do peso que lhe oprimia o coração como se fora uma montanha, não teve Francisco para sua mulher demonstrações de desagrado nem rudes expressões, antes agradecido á sua solicitude, para a qual não havia solução de continuidade; seu semblante fez-se de boa sombra, e até um risosinho meigo e terno ensaiou o matuto satisfeito com esta nova manifestação do gênio essencialmente ativo e previdente daquela com quem repartia o peso da vida.

- Não estranho, Marcelina, disse-lhe ele brandamente. – que você, vendo-me no estado em que me acho, trate de suprir as faltas da casa aumentando o seu esforço e trabalhando por você e por mim. Mas por que razão não me há de dizer o que tem de fazer antes de entrar em obra? Que lhe custa isso? Se me tivesse dito o que vinha aqui fazer, eu não teria saído de casa com risco de recair, estando já quase bom.

- Para que está dizendo isso? Se eu lhe dissesse que vinha cortar juncos na lagoa, você não me deixaria vir. Eu bem o conheço, Francisco.

- Deixava. Porque não deixava? No que eu não vejo razão foi em esconder-se de mim, quando eu já a tinha

visto.

- Cuidei que não me tinha visto, senão eu tinha logo aparecido. Eu disse comigo: Francisco, não me vendo, volta para casa, e deixa-me tempo de sair da lagoa nas costas dele.

- Que lembrança esta, Marcelina! Então as ervas não haviam de declarar-me a verdade?

Ora! Eu podia dizer-lhe que as tinha comprado ao Manoel da Hora, como disse quando você perguntou donde tinham vindo os cipós.

- E então os cipós também foram cortados por você na mata virgem?

(continua...)

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