Por Bernardo Guimarães (1872)
Não contente com admirar e sentir as belezas desses grandes poetas, Eugênio, que tinha em si um grande fundo de sentimento e calor poético, ensaiavase às vezes procurando traduzir em estrofes as emoções de seu coração, e as imagens que lhe pululavam no espírito. E quem senão Margarida, aquela beleza em botão poderia inspirar os cantos daquela musa ainda no berço?...
Mas, um dia, Eugênio esteve a ponto de perder todo o bom conceito e estima, que até então tinha merecido de seus preceptores.
Eugênio se ocupava às vezes em escrever algumas coisas, que não eram os seus temas de latim, e escondia cuidadosamente esses manuscritos, em que cismava longamente. Como os meninos estudavam e dormiam em um vasto salão aberto, esta circunstância não pôde escapar aos olhos escrutadores e perspicazes do regente. Picado de curiosidade, este entendeu que devia saber o que continham aqueles papéis. Portanto, na hora do recreio, incumbindo a outro o cuidado de levar os meninos a passeio, deixou-se ficar no salão, e foi dar busca aos papéis de Eugênio, esperando não encontrar entre eles afora as listas de significados e os temas de latim, senão algum esboço de sermão ou talvez algum ensaio de hinos religiosos, com cuja leitura já de antemão se regalava sua ávida curiosidade.
De fato, encontrou alguns esboços informes nesse gênero, mas qual não foi a sua surpresa, quando entre esses papéis encontrou também uma longa carta escrita no tom mais sentimental e uma porção de versinhos amorosos dirigidos a uma rapariga de nome Margarida!? Que terrível auto de corpo de delito! Que sentença esmagadora, que anátema tremendo pairava então sobre a cabeça de Eugênio, que a essa hora sentado como de costume no paredão da esplanada do quintal, tranqüilo e descuidoso cismava saudades da sua Margarida!...
CAPÍTULO VI
Os versos de Eugênio eram apenas alguns ensaios incompletos e de forma tosca e imperfeita, e estrofes sem nexo esparsas aqui e acolá em pequenas tiras de papel. Eram as primeiras tentativas de um estro infantil que ensaiava os vôos, como o passarinho novo que não podendo ainda lançar-se pelo espaço, contenta-se com esvoaçar em torno do ninho.
O regente, que era também o seu professor de latim e muito curioso de espécimes desse gênero, conservou alguns desses versos, que lhe pareceram menos toscos e mais bem acabados, como as duas seguintes coplas:
Longe de teus lindos olhos,
Ó Margarida,
Passo a noite, passo o dia Em cruel melancolia; Ai! triste vida!
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Que importa estejas ausente
Ó bem querida;
O teu formoso semblante
Estou vendo a cada instante, Ó Margarida.
No gênero bucólico o que havia de mais completo e inteligível, era o seguinte:
Enquanto o nosso gado vai pastando
A verde relva ao longo da ribeira,
Vamos, Menalca, repousar um pouco A sombra da paineira.
Ali tu ressoando a doce avena
A Clore cantarás que é tua vida;
E eu te escutando chorarei saudades Da minha Margarida.
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Mas basta; a sombra desce dos outeiros,
E o sol se esconde atrás daquela ermida, É tempo de ir buscar o manso gado Da minha Margarida.
O padre regente, conquanto admirasse o precoce talento poético do menino, foi às nuvens com semelhante descoberta, e tratou logo de seqüestrar e ir meter nas mãos do padre-mestre diretor aqueles execrandos papéis, à exceção de alguns poucos que como apreciador do talento de seu aluno quis conservar consigo.
O diretor, cheio de assombro e altamente escandalizado, resolveu chamar à sua presença e interrogar com todo o rigor o autor daquelas libertinagens, disposto a castigá-lo severamente.
— Que hipócrita! — exclamava o padre, cheio de santa indignação. — Em tão tenra idade e já com o coração tão corrompido!... ah! velhaquete!... e andava-me aqui com carinha de santo!... que castigo merece uma hipocrisia tal!...
Pobre menino!... aquela ingênua expansão de uma alma pura e afetuosa, que sabia ainda conciliar o culto do criador com o de criança, que se expandia como uma flor aos primeiros raios da aurora exalando perfumes de poesia, era pelo contrário aos olhos do fanático preceptor um pecado abominável, uma revoltante hipocrisia.
Portanto, depois que os seminaristas se recolheram do recreio e que a sineta deu sinal da hora do repouso, Eugênio foi intimado pelo seu regente para comparecer no quarto do padre-mestre diretor.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.