Por Bernardo Guimarães (1872)
- Ah! Se eu um dia pudesse falar sem testemunhas, e revelar-lhe tudo quanto sinto! - disse ele baixinho a Lúcia numa ocasião em que o pai se ausentara por um momento.
-mas. . . isso. . . não pode ser, -murmurou Lúcia com voz breve e decisiva, mas cobrindo-se de tal vermelhidão, que se teria traído completamente, se ali houvesse olhos perspicazes e perscrutadores.
-talvez possa – continuou Elias sorrindo. -sei que a senhora passa ás vezes horas inteiras sozinha na fonte do quintal. Ficará muito assustada, se eu um dia lá aparecer?
-sem dúvida! . . . não; não vá; senão, nunca mais lá voltarei.
- Nada receie; eu a respeitarei tanto ou mais do que se estivéssemos aqui, em presença de seu pai.
- Não vá, não. . . tenho medo. Agora nunca mais irei lá sozinha.
- Perdão, minha senhora! Não lhe teria feito este pedido, se soubesse que me tinha tanta aversão.
- Aversão! . . .
Os tamancos do Major, ressoando no soalho, anunciavam a sua volta, e impuseram silêncio aos dois amantes.
No primeiro dia que se seguiu a este colóquio, Lúcia cumpriu restritamente a ameaça que fizera de não voltar mais à fonte; mas só Deus sabe quanto isto lhe custou. No segundo dia foi, porém acompanhada de sua irmã e de Joana; pensava seriamente nas conseqüências daquele passo, e tinha medo; mais o coração a arrastava para lá. Elias, que tudo observava com a vista perspicaz do amante, que ouvia a voz dela, sentia-lhe os passos, e quase adivinhava quando estava em casa, e que, além disso, subindo um pouco pela encosta do espigão podia atravessar o estreito trilho que embrenhando-se pelo pomar ia ter à fonte não pôde deixar de manifestar seu descontentamento não por palavras mas por seu ar triste e taciturno.
Ao terceiro dia Lúcia não pôde conter-se, tomou sua cestinha de costura e lá desceu a sentar-se à sombra no gramal da fonte. Elias bem o pressentiu; mas era já muito tarde para ter tempo e dar as voltas necessárias a fim de ocultar seus passos; e portanto lá não apareceu.
- Cumpriu a sua promessa de não ir mais à fonte? - perguntou-lhe ele no outro dia à hora da lição.
- Cumpri sim senhor; sozinha não vou lá mais.
- Entretanto se me não engano parece-me que a vi ontem descer sozinha para lá.
- Quem? A mim? O senhor viu? . . .
- Sim, senhora, vi; e creio que era mesmo a senhora.
- Pode ser. . . à tarde faz tanto calor aqui em casa; e demais estou certa que o senhor lá não há de aparecer, não é assim?
Elias sorriu-se, e Lúcia sentiu o rubor afoguear-lhe as faces.
Elias costumava caçar pelos campos do arredor, mui abundantes em perdizes, codornizes e outras caças.
No dia seguinte, logo após o jantar, arreou seu cavalo, pegou na espingarda, chamou seu cão, e saiu. Deu longas voltas para poder, sem ser observado, entrar pelo capão que desde as cabeceiras bordejava o córrego até os fundos do quintal. Apenas se embrenhou no mato, apeou-se, atou o animal a uma árvore, e desceu costeando o córrego por estreitos trilhos feitos pelos pés do gado e de animais silvestres.
Elias contava quase com certeza encontrar Lúcia na fonte, e não se enganou. Ela já estava com efeito, não naquele doce descuido d’alma, em que a temos visto outras vezes, mas inquieta, anelante, como a corça espavorida, que cuida ouvir a cada instante o latir dos cães e as vozes do caçador.
A entrevista durou apenas alguns minutos. Elias, que tinha estudado mil frases apaixonadas, apenas disse, tomandolhe a mão e beijando- a:
- Eis-me aqui, D. Lúcia; perdoe-me esta audácia. . . se soubesse quanto a amo! . . .
- O senhor é bem mimoso – disse ela entre risonha e enfadada. - Não lhe tinha pedido que não viesse aqui? . . .
- Bem lhe queria obedecer; mas o amor foi mais forte que eu. Vim para ouvir de seus lábios uma só palavra de que depende a minha felicidade, a minha vida. Diga-me, a senhora me tem amor? . . .
Lúcia hesitou um instante, fitou os olhos no chão, e murmurou timidamente:
-muito! . . .
- Anjo! - exclamou Elias caindo a seus pés e procurando derramar em palavras de ternura o prazer que lhe transportava a alma; mas não pôde dizer mais nada. Quando o coração está cheio de felicidade, a vida toda se concentra ali, a cabeça fica erma de idéias, e a língua fica paralisada.
Mas Lúcia imediatamente o tirou daquele embaraço, dizendo-lhe com ar inquieto.
- Está satisfeito o seu desejo. Agora retire-se, retire-se quanto antes. A cada momento pode aqui chegar alguém. . .
E, tirando uma flor que tinha no cabelo, a entregou a Elias. Este enlaçando-lhe o braço em torno ao colo, tomou-lhe a mão e beijou- a com ardor. Foi tudo quanto ousou fazer.
- Adeus!
- Adeus!
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.