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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Em 1698, ordenou el-rei de Portugal que para residência dos governadores do Rio de Janeiro se comprasse a casa da Rua Direita, que depois ficou sendo chamada dos Contos, e que ainda hoje é assim por alguns dos nossos velhos denominada, porque para ela se passou a provedoria, e debaixo do seu teto se recolhiam os cabedais da coroa, importantes em avultados contos de réis.

Atualmente está o Correio Nacional estabelecido nessa casa, que bem merece conservar o nome dos Contos, pois que a respeito dela podem-se referir contos largos, e por sinal que até foi incendiada, quando em 1710 os franceses atacaram a cidade.

Oportunamente conversaremos sobre este caso.

Chegou, enfim, a época do palácio que estamos estudando. Lê-se sobre o seu pórtico principal a inscrição que recorda o ano em que foi construído, e o nome daquele a quem o devemos:

“Reinando El-Rei D. João V, nosso Senhor, sendo governador destas capitanias e da de Minas Gerais, Gomes Freire de Andrade, do seu conselho, Sargento-Mor de Batalha dos seus Exércitos. Ano de 1743.”

Se não conheceis bastante que homem era esse Gomes Freire de Andrade, depois conde de Bobadela, informai-vos das melhores obras antigas de que se ufana a capital do Brasil, e avaliareis as proporções desse ilustre varão pela altura dos monumentos e pela importância dos trabalhos que executou.

Se ainda não vos basta isso, ide ao paço da nossa municipalidade, e aí encontrareis o seu retrato conservado pela mais justa gratidão e permitido muito excepcionalmente por el-rei de Portugal, que reco nheceu os direitos que ele tinha a essa patriótica manifestação, de que até então somente os soberanos podiam ser objeto.

Quereis ainda conhecê-lo melhor? Apreciai-o na morte, depois de havê-lo admirado na vida. O conde de Bobadela achava-se com a saúde alterada, quando os espanhóis, em 1762, tomaram a colônia do Sacramento, e logo depois desbarataram uma esquadrilha que em socorro dos portugueses ele mandara. Estes desastres e a injusta murmuração com que o ofenderam os negociantes do Rio de Janeiro, que muito sofreram em seus interesses com a perda da colônia, o afrontaram de paixão tão grave que morreu em janeiro de 1763.

Realmente, já não há Bobadelas no nosso tempo! Nem com a lanterna de Diógenes seríamos capazes de encontrar um ministro que morresse de desgosto por causa de um desastre desses. A medicina pode descansar completamente: a moléstia de que morreu o conde de Bobadela já não aparece hoje em dia, nem mesmo com caráter esporádico.

Não esqueçamos, porém, a história do palácio.

Palácio? É preciso atender ao modo por que nos exprimimos. Palácio não. Casa dos governadores sim. Uma carta régia proibiu chamar palácio à casa da residência dos governadores. Palácio, pois, deveríamos chamá-la somente mais tarde, se não estivéssemos há mais de um século de distância daquela ordem de el-rei, e por isso livres de culpa e pena.

Um pouco de favor da virtude da paciência. Trata-se agora da descrição.

O palácio (perdi o medo à carta régia) passou por algumas modificações, que convém lembrar cronologicamente.

Constava ele, como ainda hoje, de quatro faces octogonais. A principal, que olha para o mar, oferecia à vista três corpos separados por pilastras e com três janelas em cada um deles. Tinha um só andar, e inferiormente três pórticos de pedra mármore branca, sendo o do centro formado por duas colunas rematadas superiormente por graciosas cambotas, e os dos laterais mais estreitos e de forma vulgar. De um e outro lado destes, abriam-se janelas de peitoril. Cada um dos pórticos descansava sobre uma escadaria própria, de mármore branco.

A face do norte apresentava, ao ligar-se com a anterior descri ta, um pórtico fronteiro a outro igual da face do sul, dando entrada para o saguão, e além desse, mais dois para serventia particular, e entre eles duas cocheiras e dezenove janelas de peitoril. No pavimento superior, havia vinte e quatro janelas como as da fachada principal.

Na face do sul, que olha para o atual paço da Câmara dos Deputados, havia, além do outro pórtico, vinte e três janelas de peitoril e mais uma porta para serviço particular, e no pavimento superior vinte e três janelas, das quais sete eram de peitoril e colocadas quase a meio da fachada.

A face do fundo apresentava nove janelas de sacada no andar superior, e inferiormente um pórtico ladeado por quatro janelas de peitoril.

A entrada do palácio era nobre: duas filas de colunas conduziam à escada, que agora é nobre, também constando de dois lances no mesmo sentido e outros dois em sentido oposto. Como era, porém, no tempo do conde de Bobadela, não sei: não nos ficou memória da escada primitiva, sem dúvida porque no século passado ainda não se conhecia no Brasil a importância extraordinária que tem uma boa escada.

(continua...)

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