Por José de Alencar (1853)
Logo apoz abicava á ribeira o batel conduzindo Ayres de Lucena, que saltou em terra ainda com o mesmo sossobro, e a alma cheia de inquietação.
Era tarde da noite para ver Duarte de Moraes; mas não quiz Ayres recolher sem passar-lhe pela porta, e avistar-se com a casa onde habitava a dama de seus pensamentos.
Alvoroçaram-se os sustos de sua alma já aíflicta, encontrando aberta áquella hora adiantada a porta da casa, e as frestas das janellas esclarecidas pelas resteas de luz interior.
De dentro sahia um rumor soturno como de lamentos, entremeiados com reza.
Quendo deu por si, achava-se Ayres, conduzido pelo som do pranto, em uma camara illuminada por quatro cirios collocados nos cantos de um leito mortuario. Sobre os lençóes e mais
livida que elles, via-se a estatua inanimada, mas sempre formosa, de Maria da Gloria.
A nivea cambraia que lhe cobria o seio mimoso, afflava com um movimenlo quasi imperceptivel, mostrando que ainda não se extinguira de.todo n'esse corpo gentil o halito vital.
Ao ver Ayres, Ursula, o marido e as mulheres que rodeavam o leito, ergueram para elle as mãos com um gesto de desespero e redobraram o pranto. .
Não os percebia porém corsario; seu olhar baço e morno se fitára no vulto da moça e parecia entornar sobre ella toda sua alma, como uma luz que bruxoleia.
Um momento, as palpebras da menima se ergueram a custo, e( os olhos azues, coalhados em um pasmo glacial, volvendo para o nicho de jacarandá suspenso na parede, cravaram-se na imagem de Nossa Senhora da Gloria, mas cerraram-se logo.
Estremeceu Ayres, e ficou um instante como alheio a si, e ao que passava em torno.
Lembrava-se do pecado de render impia adoração a Maria na imagem de Nossa Senhora da Gloria, e via na enfermidade que lhe arrebatava a menina, um castigo de sua culpa.
Pendeu-lhe a cabeça acabrunhada, com si vergasse ao pezo da colera celeste ; mas de chofre a ergueu com a resolução de animo que o arrojava ao combate, e por sua vez pondo os olhos na imagem de Nossa Senhora da Gloria, calhiu de joelhos com as mãos erguidas.
— Pequei, Mãi Santissima, murmurou do fundo d'alma; mas vossa misericordia, é infinita. Salvai-a ; por penitencia de meu pecado andarei um anno inteiro no mar para não a ver; e quanto trouxer ha de ser para as alfaias de vossa capella.
Não eram proferidas estas palavras, quando estremeceu com um sobresalto nervoso o corpo de Maria da Gloria. Entreabriu ella as palpebras e exhalou dos labios fundo o longo suspiro.
Todos os olhos se fitaram anciosos no formoso semblante, que iase córando com uma tenue aura de vida.
— Torna a si! exclamaram as vozes, a umtempo.
Ergueu Ayres a fronte, duvidando do que ouvia. Os meigos olhos da menina ainda embotatados pelas sombras da morte que os tinham roçado, fitaram-se n'elle ; e um sorriso angelico enflorou a rosa d'esses labios que pareciam sellados para sempre.
— Maria da Gloria! bradou o corsario arrastando-se de joelhos para a cabeceira do leito.
Demorou a menina um instante n'elle o olhar e o sorriso, depois volvendo-os ao nicho cruzou as mãos ao peito, e balbuciou flebilmente algumas palavras de que apenas se ouviram estas:
— Eu vos rendo graças, minha celeste Madrinha, minha Mãi Santissima, por me terdes ouvido...
Expirou-lhe a voz nos labios; outra vez cerraram-se as palpebras, e descahiu-lhe a cabeça nas almofadas. A donzella dormia um somno placido e sereno.
Passára a crise da infermidade. Estava salva a menina.
NOVENA
A primeira vez que Maria da Gloria sahiu da camara para a varanda, foi uma festa em casa de Duarte de Moraes.
Ninguem se cabia de contente com o regozijo de ver a menina outra vez restituida ás alegrias da familia.
De todos o que mostrava menos era Ayres de Lucena, pois por instantes sua feição velava-se com uma nuvem melancholica ; mas sabiam os outros que dentro d'alma ninguem maior, nem tamanho jubilo sentira, como elle; e sua tristeza n'aquelle momento era alembrançado que soffrera vendo a moça a expirar.
Ahi estava entre outras pessoas da privança da casa, Antonio de Caminha que se houvera galhardamente na perseguição dos francezes, embora não lograsse capturar a preza a que dera caça.
Não escondia o moço o regozijo que sentia com o restabelecimento d'aquella a quem já tinha chorado, como perdida para sempre.
N'esse dia revelou Maria da Gloria aos pais um segredo que escondia.
—É tempo de saberem o pai e a mãi que fiz um voto a N. Senhora da Gloria, e peço sua licença para o cumprir.
— Tu a tens! disse Ursula..
— Fala ; dize o que prometteste! acrescentou Duarte de Moraes.
— Uma novena.
— O voto foi para te pôr boa? perguntou a mãi.
Córou a moça e confusa esquivou-se á resposta. Acudiu então
Ayres que até ali ouvira calado:
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.