Por José de Alencar (1864)
De repente ela descaiu o corpo no movimento que fazem as senhoras quando sentem presa a cauda do vestido. Com essa inclinação as ondas da escumilha me envolveram os pés. Ouvi o rechino de lençarias que se rasgassem com violência. Empalideci!... Os folhos do elegante vestido, composto com tanto esmero, rojavam espedaçados pelo chão.
Emília retraiu o passo, e abateu uns olhos frios para o estrago do trajo mimoso, que tantos elogios e maior inveja exeitara. Depois esbeltou-se para dardejar-me sobranceira outro olhar, mais frio ainda que me traspassou.
—Nem de propósito!...
Ah! Paulo, se tu ouviras a voz com que me foram ditas estas palavras! O ferro boto não penetra, serrando as carnes, com dor mais intensa, do que deixavam essas palavras rasgando-me os seios d'alma! Ainda me adiantei exclamando:
—É uma injustiça, minha senhora!...
Por toda resposta, ela curvou-se para colher as orlas espedaçadas do vestido; arrancando uns fragmentos que arrastavam ainda, atirou-os de si; eles vieram cair a meus pés, e eu apanhei-os estupidamente. Duvidei de mim um momento. Teria eu insensivelmente pisado a fímbria da saia? Mas como, se ficara imóvel, e nem sequer me voltara? Junto de mim não estava outra pessoa; era pois ela própria quem, para não roçar-me passando, rasgara sem querer o seu vestido, e se aproveitara do incidente para mortificarme.
Podia eu imaginar que ela tivesse por acinte a mim sacrificado deliberadamente sua elegância e os triunfos que lhe prometia o baile, cousas que só ao entusiasmo da primeira paixão sacrificam raras mulheres, as heroínas do amor? Tocava a contradança: dei o braço a Julinha. Como já me aborrecia esse baile antes de começar! Não via Emília; procurava-a nas quadrilhas já formadas, quando ela surgiu diante de nós, envolta em sua ampla mantilha cor de cinza, que lhe ocultava todo o corpo p cingia com uma das pontas o colo e parte da cabeça. Estendeu a mão à prima:
—Adeus! —Que é isso, Mila? —Vou-me embora. Não vê? —Ainda o baile nem começou! —Acha você que estou muito decente? disse abrindo a manta e mostrando a escumilha esgarçada sobre o forro de cetim.
—Que foi isto? Quem lhe pôs nesse estado? —Quem?... Um pé!...
Já viste alguma vez, Paulo, amesquinhar assim um homem e esmagá-lo com uma palavra? Emília atribuía a mim o que lhe acontecera; e não achava para designar-me, nem o meu nome, nem mesmo a minha qualidade de criatura humana. Era uma cousa, uma parte desprezível do corpo, um pé! Não sei o que na minha indignação ia responder-lhe, se ela me desse tempo, e não se afastasse rápida.
—,Mas isto conserta-se! disse Julinha seguindo-a. Venha cá! —Não vale a pena. Adeus.
Retirou-se pelo braço do pai, risonha, sem a menor sombra de contrariedade.
Durante o resto da noite fui o alvo dos remoques dos apaixonados de Emília; olhavam-me com a escarninha comiseração que inspirava neles o meu desaso. Por outro lado, as moças pareciam agradecerme o serviço que lhes prestara com o eclipse da beleza-rainha da noite.
Uma chegou até a dizer-me:
—Ande lá! O senhor o fez de propósito, e agora quer negar! Não lhe dei resposta.
VI
ESPEREI com impaciência a próxima quinta-feira. Estava resolvido a explicar-me com Emília.
Durante o princípio da noite, conservei-me sentado na varanda; mas via, por um espelho fronteiro à porta, D. Leocádia e a sobrinha em seu lugar do costume, a um canto do salão. Depois do chá realizou-se o que eu esperava; ficou vaga uma cadeira entre ambas:
ocupei-a logo.
Emília estremeceu; voltou-se toda para falar a outra moça, que lhe ficava à esquerda; senti que sua cadeira se afastava da minha por um movimento imperceptível.
—D. Emília! disse de modo que me atendesse.
Ela olhou-me.
—Desejo fazer-lhe um pedido.
Não me respondeu; mas uma ligeira inflexão do rosto parecia indicar-me que se dispunha a ouvir. —Diga-me, D. Emília, se alguma vez involuntariamente a ofendi, para que lhe suplique meu perdão?... Mas creio antes que tive a infelicidade, e não a culpa, de desagradar-lhe... Se isso é verdade, farei que a minha presença não a importune mais! Levantei os olhos para ela. Parecia não me ouvir, nem mesmo ter consciência de que eu ali estivesse e lhe falasse. Sua alma passava no olhar, e ia ao outro lado da sala. Havia em sua fisionomia e atitude a expressão pasma que deixa a alheação ou o recolho dos espíritos. —Não me responde, D. Emília? insisti ainda.
Continuou impassível. Estive algum tempo observando-a: depois voltei-me para D. Leocádia.
—A senhora tem notado alguma alteração na saúde de D, Emília? —Não, doutor; por quê? perguntou-me assustada.
—As moléstias graves, como a que ela sofreu, costumam afetar alguns órgãos importantes. Por exemplo algumas vezes deixam uma surdez incômoda...
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.